domingo, 17 de fevereiro de 2013

Tivéssemos nós o poder de convocar os sonhos. Às vezes conseguimos, como que programamos a mente antes de dormir, agarramo-nos a um pensamento e conseguimos levá-lo para o campo do onírico.

Quando as pessoas nos morrem, por vezes é esta a forma que arranjamos de as trazer de volta.

Sentimos, mesmo a sério, mesmo quando não somos crentes, que são um pontinho luminoso que fica a cuidar de nós lá no céu ou sobre o nosso ombro. O nosso anjo da guarda. Que nos dá força, nos guia por caminhos certos e nos afasta dos errados. Às vezes sentimos mesmo essa presença.

E os sonhos, oh, os sonhos… são momentos esperados, de reencontro, em que eles nos visitam e perguntamos “onde estiveste este tempo todo, que não soube de ti?”, ou “como conseguiste, morreste e voltaste? Foi um engano? Um avanço da ciência? Não interessa, que bom! Fica aqui agora!”. E durante aqueles momentos eles voltam a estar connosco. Abraçamos, olhamos, sentimos, falamos, VIVEMOS! Com tudo a que a vida tem direito, e mais, por ser uma vida resgatada!

Depois do surreal que é morrer-nos alguém, e descoberto este poder dos sonhos, passamos a ansiar pela noite. De manhã o sonho confunde-se com a realidade e sabemos que eles estiveram mesmo ali, connosco. Sentimo-los. Tudo voltou a recompor-se. Quem diz que não é o sonho a verdadeira versão do real?

E assim os vamos mantendo ao nosso lado, vivos, aligeirando a dor e a solidão e ganhando forças a cada noite deste elixir secreto.

Depois, de repente, olhamos para trás e vemos que eles já lá não estão. Deixaram de nos visitar e nem convocando aparecem. Manhã após manhã, constatamos que da nossa memória não conseguimos espremer uma imagem, uma palavra, um toque… voltaram a não comparecer.

Fica um sentimento ambíguo de abandono. Abandonaram-nos eles ou fomos nós a abandoná-los? Já não precisam de nós, puderam passar o limbo e seguir em frente? Ou teremo-los nós traído e abandonado?

Será este abandono para sempre, agora para sempre? Estaremos prontos para seguir em frente, sozinhos, sem o nosso pontinho luminoso?

Há muito que não ia a um funeral. Hoje fui a um.

Meio dia chuvarudo a condizer com os estados de alma. Avô duma prima, que recordo no vigor da vida, nós crianças, reunidos em festas familiares, quando os primos são ainda pseudo-irmãos e os avós deles também uma espécie de família nossa. Casamentos e baptizados de filhos e netos – primos e tios. Braços de trabalho a tratar da vida, quando todas estas festas eram feitas em casa sob sombras de rama de eucalipto, mesas e bancos de tábuas corridas e chão de junco. E a balbúrdia de fazer as comidas, muitas vezes só com a ajuda duma boleira de fora.
Nessa altura, eles a tratar da vida e nós a depender deles, independentes apenas nas nossas brincadeiras. Mas ainda extensões deles.

Depois cresce-se. Os primos afastam-se. Os avós, os nossos e os deles, envelhecem. Adoecem.

Hoje, no último adeus ao marido, a T’Isabel, chorava e repetia “adeus, amigo”. Do cimo dos seus oitenta e cinco anos, a maior parte em conjunto com ele, dizia “adeus, amigo. Uma prenda tão boa que eu tive!...adeus, amigo”.

Percebi, não logo, que ela estava a falar da vida deles, e dele, em particular. Não é uma daquelas situações em que os mortos passam de repente a ter só qualidades que não tiveram em vida. Não. O Ti Chico era um bom homem. Ao que via, um bom marido, um bom pai, bom avô. Penou muito antes de partir. Muito e muito tempo. Uma daquelas doenças malvadas.

 “Quem vai agora entrar naquela casa sem ti, amigo, vais para uma casa tão escura. Adeus, amigo. Uma prenda tão boa que eu tive!...”

Que melhor homenagem pode uma mulher fazer ao seu companheiro de vida?

domingo, 9 de outubro de 2011

Gosto de catar pedras.O meu avô também gostava.

Bom, na verdade, o que gosto no catar pedras é o trazer-me à memória o meu avô a catar pedras. Também ele não devia amar a tarefa por aí além. Mas aqui estamos, separados por décadas, unidos por uma memória tão simples.

Ficamos a viver nos outros pelas pequenas coisas.

Não percebia muito bem o porquê de ele o fazer. As pedras faziam parte da terra, que mal havia deixá-las ficar?

Agora aqui ando eu, enxada em punho, rabo para o ar... a recolher pedras que mais parecem batatas prontas a apanhar. Terreno fértil em pedras, sempre pronto a gerar e gerar e gerar...

Não deixa de ser estranho. A vizinha Fernanda queixa-se do mesmo e anda por ali há bem mais tempo que eu. As pedras não se reproduzem, fruto do adubo e da chuva. Mas renovam-se constantemente, como se estivessem em camadas intermináveis que vão sendo vomitadas pela terra.

Tenho para mim que vou conseguir vencê-las.... se bem que já estive mais convencida disso. O monte das até agora sequestradas cresce e a enxada continua a encontrá-las, aqui, ali, acolá.

Sou adepta da agricultura biológica... não fosse, e já teria comprado um potente pedricida!
Lá onde estiver, o meu avô também se sentiria justiçado.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Os cobardes

Os cobardes dos nossos dias, outrora ousados, perdidos nas ideias e promessas de vida.

Quiseram tanto e tanto andaram que, de tanto tentar, deixaram de ousar.

Começam os dias a interrogar o mundo do porquê das falhas, dos sonhos adiados, ou apenas e tão só, interrogando-se porque destoam no rebanho de tantos alinhados.

Porra, se isto tem que ser, porque não fazer, porque não deixar acontecer?

É a dita da cabeça que comanda quem pensa. E ela nunca acaba aquilo que o coração começa.

Ditos tentados, outrora ousados e que se cansaram de tentar, já nem disfarçam os medos.

Acobardados seguem o rebanho, sem ousar, são apenas guiados.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A Geração dos Pais Tardios

Há muito que se constatou que somos pais cada vez mais tarde. Só trintões ou quarentões decidimos ceder às maravilhas da maternidade e paternidade.
Para consolidar carreiras e condições económicas ou porque simplesmente nos tornámos mais exigentes na selecção do Príncipe Encantado ou da Cinderela.

Casar, ou aCasalar, já não é o passo óbvio a tomar em determinada altura da vida. Já não é o grito de Ipiranga, o passaporte para sair de casa.

Acasalar é agora uma decisão ponderada. Chega-se lá, quando se chega, com a serenidade duma vida independente, pretendendo partilhar a independência.

O ter filhos, aqueles seres a quem daremos o nosso amor e passaremos os nossos valores, vai sendo também protelado. É hoje quase um prémio na luta contra o tempo e a biologia.

A contrapor à inconstância da juventude, temos para oferecer aos nossos herdeiros, dizem, a serenidade trazida pelos anos. Usufruímos mais dos momentos, deliciamo-nos, pasmamos. Estamos mais disponíveis.

Levamo-los aos nossos pais, que viam a linhagem já a terminar por aqui. Vemos os seus olhares brilhar, os corações avivarem-se, eles a rejuvenescerem. Demos netos aos nossos pais! E é aí que nos apercebemos:

Dificilmente seremos avós.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Eu sabia que a respiração podia beijar.

Anda comigo viver!

sábado, 22 de janeiro de 2011

Capítulo V

- Aqui tem.
- Obrigada – e pagou a bebida. Gostava de ficar livre para se levantar e sair quando lhe apetecesse. Ia saborear um pouco mais a esplanada. De fundo, uma música que conhecia vagamente mas que não conseguia identificar… gosto apurado e nada óbvio.

Curioso… há já algum tempo que não se lembrava sequer da existência do Pedro nem de todo o burburinho que era a vida na cidade. Era tão bom estar ali, revisitar as recordações e ver que o fado de mais uma aldeia abandonada podia mudar e tomar um rumo feliz. Nada no fado é definitivo.

Um outdoor apresenta o programa comunitário patrocinador daquele pequeno milagre. Um protocolo público-privado que envolve também empresas. Muitos milhões, muitos zeros.

Levantou-se e foi bebendo e trincando a palhinha com os dentes. Os paralelos eram substituídos por pedaços de tronco em certas zonas. Faziam um ruído diferente ao pisar. Apetecia saltitar e esboçar uma melodia com estalidos da língua. Tloc, tloc, tloc…

Passou pelos parques temáticos, interessantes, e depois de hesitar, resolveu entrar na sede do projecto - a porta de vidro abriu-se quando se aproximou.

Lindo! Haviam integrado uma rocha indígena na arquitectura do espaço. A luz e um grande aquário completavam na perfeição aquele nicho.

Mapas, plantas, fotos dos espaços antes de serem intervencionados. O andamento das obras, paredes mandadas abaixo, alicerces. As expressões nas faces das pessoas congeladas para o futuro, feitas documentos de estudo. Emoções documentadas. Também aqui, algumas caras lhe eram familiares.

Como sempre, tentou recolher todos os panfletos. A triagem dos que valeriam realmente a pena faria-a o tempo e as sucessivas passagens nas limpezas e arrumações.

Por fim, surgia o Livro de Visitas e um espaço com formulários onde dizia “Deixe-nos a sua candidatura”. Teve curiosidade e pegou num formulário, que começou a ler enquanto esperava que chegasse a inspiração para deixar uma mensagem no livro.

Conheci este local há muito tempo, fez parte da minha infância. Foi um bálsamo para a alma revisitá-lo agora e vê-lo renascido. Um trabalho esplêndido! Muito obrigada e as maiores felicidades!

Simples e concisa! Estava verdadeiramente conquistada. Tacteava o formulário e rodava a caneta nos dedos. Poderia preenchê-lo… não estariam decerto a contratar pessoal, não corria esse risco. Não gostava da vida na cidade, nada lá a prendia, mas sempre lhe faltou a coragem para partir. Nada a chamava de outro lado, também; de qualquer forma, admirava, e muito, as pessoas que deixavam tudo para trás, que se lançavam a trilhar caminhos desconhecidos quando algo não estava bem.

- Posso deixar?
- Claro - ripostou o funcionário atrás da secretária, com um sorriso acolhedor – obrigado pelo seu interesse… e boa sorte para a sua candidatura.

Estava vestido informalmente e tinha a barba por fazer de há vários dias. Não se lembrava dele, talvez fosse um forasteiro. Mas também, como podia almejar lembrar-se de toda a gente que encontrava apenas vagamente nas férias de verão de há tantos anos?

- Minha candidatura?! Ah, sim, claro, obrigada – e saiu meio envergonhada. Esperava que não considerassem aquele papel e a chamassem, era trabalho desperdiçado.

Estava a ficar escuro. Voltou ao carro e regressou a casa.

Regressar a casa. Era hora de voltar a colocar tudo no saco de viagem e preparar o regresso. Na última noite ia preparar uns ovos mexidos e finalmente ver um filme no computador, aninhada por entre as mantas no sofá. Passou tão depressa.

...

Vejo com os meus olhos algo que mais ninguém viu comigo. Não conheço ninguém que veja como eu.


Fico sozinha neste mundo esquisito em que todos parecem ter encontrado os carris. Eu não.

Não se fazem carris para peças isoladas. Tento outros pisos. Terra molhada, alcatrão, calçada. Não me ajusto a nenhum. Não pertenço aqui.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Capitulo …

Evaristo penosamente continuava a tentar.

Continuava a saga de encontrar o caminho que o levaria à liberdade. Cobardemente deixava que os pensamentos do bom que tinha a vida de casado lhe permitia. A estabilidade alcançada, o periquito, o gato, as refeições que a esposa sempre preparava com carinho, os confortos de olhar para o armário e ter sempre roupa para vestir, a casa arrumada, etc.

O amor, segundo Evaristo, era tão só o conforto de um lar. Não passava de um complexo de Édipo.

É curioso, pensava, não há homem no mundo preparado para viver sem uma mãe.

Sua intenção de se separar não era um grito de liberdade, era tão só uma partida em busca de um amor que o fizesse voltar aos tempos de amado e de amante.

Discutia quase diariamente com Adélia. Custava-lhe ver que ela estava determinada a defender aquele lar até ao limite das suas forças.

A mulher é uma força da natureza. Não existe igualdade legal que force o homem a chegar-lhe aos calcanhares. A mulher só é inferior ao homem em força física. No resto não tem sequer metade da vontade, da dedicação, inteligência, sensatez e astúcia da mulher.

Não existe homem que  consiga fazer, com a naturalidade feminina, a rotina de uma mulher. Trabalho, filhos, lida da casa e ainda um marido.

Continuas rotinas que aos olhos dos demais mortais, homens, são pouco valorizadas. As rotinas tornam-se em movimentos naturais de quem os faz aos olhos de quem observa.

O tributo que Evaristo dava às mulheres da sua vida era a gratidão com que ficava. Mas não lhe chegava para alimentar o fogo que lhe consumia o coração e a alma de amante sedento de acção. E essa, Adélia já não lhe provocava.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Capítulo III (cont.)

Perto da aldeia descaracterizada dos avós havia uma outra que andava para visitar há meses. O artigo sobre o projecto de recuperação que ali nascia, que encontrou ao folhear uma revista, deixou-a meio orgulhosa, meio céptica. Devia ser mais um daqueles casos de publicidade enganosa, de engrandecimento de projectos que depois mal saem do papel.

Saiu do caminho que levava e encaminhou para lá o carro.

Começou a avistar o casario e uma ruga de espanto surgiu-lhe na testa, enquanto esboçava um sorriso. “Eu não acredito!”.

O caminho pedonal em calçada convidava a entrar, depois de deixar o carro por ali.

As casas reerguidas, muitas com traços diferentes das anteriores, não tinham agora menos encanto. O espírito do lugar mantinha-se, mas com um novo fôlego.

Fizeram daquele um lugar mágico. Viu passar o velho a coxear ladeado pelo burro e a miúda. As cangalhas seguravam uma trouxa que parecia cair a cada passo… direita, esquerda, direita, esquerda, bamboleava.

Sentiu um nó na garganta e escondeu os olhos atrás dos óculos escuros. Não conseguia lembrar-se de muito mais e isso deixou-lhe um travo amargo na boca. Tinha o velho, o burro e a miúda mas não conseguia recordar-se do que falavam, de quais as posições que assumiam à medida que avançavam no caminho, se a miúda ia brincando e ficando para trás ou se, por outro lado, acompanhava o avô sem lhe atrasar o passo.

O caminho ainda era longo desde a casa dos avós até à fazenda – ao foro, como lhe chamavam - e de todo o percurso pouco mais se recordava que da passagem por aquela aldeia, ela observadora das gentes e meio envergonhada pela roupa humilde de trabalho e o avô absorto nos seus pensamentos. Logo à frente cortavam à direita e entravam numa estrada de terra batida e muros altos, a do campo da bola. Depois, o cruzamento onde não raro se deparavam com uma cafeteira velha ou uma panela gasta. “Não mexas, são bruxarias!”. E ela não mexia.


Havia turistas por ali, a divulgação estava a resultar. Pormenores cuidados, bermas empedradas, também, cobertas por plantas espontâneas.

Algumas das caras que via ao passar eram-lhe familiares. Muitos não saíram dali para estudar, fixaram-se, formaram famílias, cresceram. Deviam trabalhar por perto. Outros, não tinham ainda morrido.

domingo, 5 de dezembro de 2010

2º Capitulo

Evaristo passava todas as semanas naquela rua. Impressionava-o a dedicação daquele cão a quem tinha escolhido como dono. Permanecia pacientemente à porta da casa onde o dito entrasse. Não abandonava por nada o posto de vigia.
Evaristo sentia assim a sua Adélia.

Pior que a inexistência do amor, seria com toda a certeza a falta de correspondência que Adélia sentia no seu escolhido.

Curiosa esta dicotomia entre o querer e o poder. Evaristo queria muito amar Adélia, mas o amor não é só querer.

A Fé que lhe tinham ensinado mantinha-o na esperança de poder amar livremente. O amor animal, aquele que os outros tinham por pernas e peitos atraentes não eram para Evaristo, ele queria o amor de fases.

Do sonho, desejo ardente, à construção. Queria sentir-se desejado por quem desejasse. Queria sentir-se dependente no desejo, não de uma mulher que fosse esposa dedicada, sem falha a apontar mas que era mais uma segunda mãe.

A curiosidade levava-o para longe nos pensamentos. Vagueava pelos tempos em que fazia as delícias das moças. Dizia o que elas gostavam de ouvir, tocava-lhes a alma, ou o coração, e era fiel a cada uma. Nunca namorara mais de 3 meses até conhecer Adélia, a quem era fiel.

Evaristo achava a lealdade uma característica fundamental para qualquer relação. Repugnava-o a velha máxima do macho enquanto animal que está sempre pronto para a cúpula. Nunca sentira o à-vontade necessário para acompanhar amigos e conhecidos nas constantes idas às casas de meninas. Metia-lhe nojo o comportamento dos homens enquanto predadores sexuais. Indignava-o a capacidade de algumas mulheres irem para a cama por ir. Achava que tudo teria de ter um significado.

Sim, também já tinha tido relações fugazes com sexo louco e excelente. Mas tinha passado pelas fase que considerava como essenciais. O “namoro” era para ele fundamental. E a lealdade.

Um dia, ainda adolescente, telefonou de madrugada para casa de uma namorada para terminar o namorico, para assim poder iludir-se com um conhecimento de ultima hora. Insensível nem sequer se inibiu por ser noite de ano novo.

Enfim. Uma semana passara desde a meta definida. E nada.

Evaristo continuava na mesma. Pagava as contas, segurava as pontas, nada de sexo e Adélia a começar a desconfiar.

sábado, 27 de novembro de 2010

1º Capítulo

Evaristo era um tipo cheio de bom aspecto. Alto de tez morena, não muito entroncado mas com definição muscular, daqueles gajos que parece que saíram do molde que qualquer garina faria.

Mulheres, ou melhor, miúdas não lhe faltavam. Com 18 anos já tinha um vasto currículo, desde a filha do Pires da mercearia, às meninas da catequese, passando por todas as que dava jeito e porque sim. Apesar de tímido, desde chavalo que tinha paciência para as ouvir, parecia toldado para confidente.

No ciclo, passava mais tempo entre as meninas do que a jogar futebol. Era um predestinado do engate.

Agora com 31 anos fazia contas ao que perdera.

Maldito dia aquele que, aos 18, o tinha levado para aquela pizzaria.

A mulher do patrão, trintona, grandes mamas, tacão alto a fazer elevar o pacote; como viria a dizer o seu avô quando a conheceu: “Um cú num belo estado de conservação!”

Adélia, até aí fiel ao marido, caíra de amores pelo miúdo. Até lhe dar uns beijitos foram 3 meses de ansiedade. Depois, grata pela dedicação que Evaristo demonstrava ao trabalhar até altas horas da noite, deu-lhe um “aumento” ao “emprestar-lhe” o cartão de crédito. Evaristo tira a carta, compra um carrito e passa a ir às compras com a patroa.

As tardes na Boca do Inferno, ou na Serra de Sintra, eram como que a devolução em géneros de tudo o que Adélia lhe proporcionava.

Evaristo, que não era ingrato, aceitou casar com Adélia quando o marido a pôs com os olhos negros de porrada. Fugiu para Alcochete, arranjou emprego numa herdade a tratar dos animais e levou com ele Adélia.

Não a amava. Mas tinha a gratidão a forçar-lhe o gosto.

Naquele dia, ao chegar do trabalho a casa, foi tomar um duche e, ao masturbar-se pela 3ª vez pensou:

- Tenho que me separar. Já nem consigo ir ao pito por obrigação. Chegou a altura do amor.

Adélia, mulher já madura, notara que Evaristo andava diferente, xingava-lhe o juízo pela ausência de sexo, mas era incapaz de o trair, tal era o amor que lhe tinha.

Uns anos antes também ela se tinha deixado iludir pelo futuro brilhante de comerciante burguês do homem que depois a maltratava. Ela também sabia que tinha comprado o amor.

Evaristo iniciava uma cruzada que, ambicionava, o levaria à felicidade que perdera.

Sentia-se perdido. O físico pedia-lhe sexo e a cabeça impedia-o de o fazer sem amor. Martirizava-se por não ser capaz, mas aquela convivência com tanta mulher, aquele velho hábito da confidência, todas as queixas das suas amigas lhe vinham à memória e Evaristo sentia-se culpado por não fazer Adélia feliz. Mas queria e sabia que devia fazer feliz quem amasse.

Tinha tanto ponderado e pensado, lido até sobre os amores que acabam, mas sabia que o seu nem tinha começado. E a vida no vazio não lhe trazia sentido.

- Homem com consciência de gaja, é o que eu sou, pensava.

Bem, com ou sem consciência, Evaristo, determinado, abraçou por baixo daquele chuveiro, uma missão: Separar-se.

Como? Logo se vê! 

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Capítulo IV

Inveja duma ovelha. Devia ser a única pessoa no mundo a ter inveja duma ovelha.


O meu pai dava-lhe mimos e falava-lhe como se fala às crianças. À ovelha que tinhamos no quintal. Chamava-se Ticha.

Sabia que era completamente desajustado este sentir, mas era assim que me sentia – desajustada. Nunca percebi porque o meu pai não gostava de mim. Perguntava-me, e angustiava-me em busca dessa resposta. A minha infância e adolescência foram vividas assim, com um pilar feito de papel sustido por fracos arames. Coxa de afectos.

Recordo do meu pai as vezes que dizia “és mesmo parva”, que ele repetia muito. Acompanhado daquele riso de desdém tão característico. Machadadas numa auto-estima que tentava construir-se.

Era boa aluna. No meu grupo de amigos, das mais dinâmicas. Éramos, todavia, os chamados totós. Bem comportados, vítimas dos mais vividos, mais sabidos, mais mal formados. Os totós. (Iríamos colher os frutos mais tarde.)

Ferida de insegurança, não sabia reagir. Tantos e tantos golpes. Tanta e tanta angústia a juntar às dores do crescimento. Intermináveis anos.

Não sei se a minha mãe tinha inveja da ovelha. Não sei, ao longo destes anos, do que mais possa ter tido inveja. Sei que sofreu. Que sofre. Perdeu o viço no olhar.

Quando era criança, e especialmente nos dias de limpeza geral, a minha mãe cantava. Cantorias acompanhadas de cheiro a cera e detergentes. Joelhos protegidos do chão apenas por um farrapo velho. Escova nas mãos. Balde de água, sabão azul. Esfregar, esfregar, esfregar. E cantar. A casa tão arejada. Móveis de pernas para o ar, colchas levantadas. Nada no chão, à excepção dum banco à entrada do corredor, deitado, a tapar a passagem. A cera em pousio. Depois passava a máquina (vuuum… vuuuumm…), e o chão ficava brilhante, espelhado. Os móveis voltavam aos sítios, as colchas voltavam a descer e escondiam agora um chão liso, sem cotão. Até ao próximo Outono.

Depois a minha mãe deixou de cantar. Nem sei bem quando. Mas sei porquê.

“És mesmo parva!” era um mimo que lhe era distribuído também a ela. A juntar à minha infelicidade tinha a dela. Ou seria mais ao contrário… a amargura da minha mãe ficava-me nas entranhas. E a partir daí o mundo era amargura.

E eu a tentar perceber. Porque não gosta ele de nós? O que posso fazer para ele gostar de mim, de nós, o que podemos fazer?

domingo, 21 de março de 2010

Não

Não gosto desta sensação de começar a sentir a tua falta. Não gosto de perder o controlo sobre mim.


Não gosto do perder de liberdade auto-inflingido e do querer aprisionar-te ao meu lado. Não sou eu.

Não gosto do transfigurar que o amor me faz.

Não gosto da expectativa, do não saber, do bem-me-quer-mal-me-quer que fazemos à medida que arrancamos uma pétala, e outra, e outra. Não gosto de te adivinhar na mesma angústia.

Não gosto de sentir que me contemplas arrebatado quando olho noutra direcção. Vejo-te.

Não gosto deste respirar acelerado e superficial que me atordoa.

Não gosto de olhar para ti e encontrar alguém que não estava ali antes. De sentir que o timbre da tua voz tem agora a melodia certa. De te descobrir nos detalhes.

Não gosto de começar a sentir a tua falta quando ainda estamos juntos. De sentir que, sempre, ficou algo por fazer ou por dizer. De sentir que gostava de ter sentido o teu abraço e ter-te dado o meu. De mais uma vez adiar o primeiro beijo.

Não gosto deste deixar que o tempo passe e as coisas aconteçam na altura certa.

Não… não gosto de precisar de ti.

Gosto.

sábado, 6 de março de 2010

4º Capítulo

Semanas depois, e já convencido que não tinha chegado a diva que me faria assumir, de novo, um compromisso, continuava na luta inglória que me levaria ao fim.

Estava apenas, sem o saber então, a duas semanas de mudar de rumo. O negócio arruinado, a família inexistente, um futuro negro e sombrio esperava-me. Os homens quando não têm projectos de vida, quando não se ocupam a tentar, vacilam. E às vezes caem.

À noite quando me deitava olhava o tecto sombrio, com manchas provocadas pelo excesso de humidade da velha casa, e via uma espécie de futuro sombrio…

Foi então que decidi fugir. Veio-me à cabeça um turbilhão de visões, vi-me de repente agarrado a uma vida frustrada que, por cobardia, tinha mantido.

A facilidade com que aceitei todo o sofrimento que até então tinha acumulado e gerido. Não sofria por querer, sofria por me alhear.

Sofria com tudo o que achava que tinha escolhido bem. Tudo o que me tinham ensinado a escolher. A estabilidade não podia ser assim tão dura, tão insensível, tão previsível.

O meu regresso a Moledo tinha sido o último passo no trilho que tomara havia já muitos anos.

Casei com quem achei que seria capaz de construir comigo um mundo só nosso. Mas era uma opinião influenciada por todo um karma gerado pela sociedade que me rodeava.

Estudei o que achava ser o melhor para o meu futuro.

Vivi da forma mais comum e certa que se pode imaginar.

Vida de merda foi o que foi.

Quantas e quantas vezes me deitei a pensar nos meus desejos, sonhei com os meus anseios e acordei num pesadelo. Tornei-me num autómato, numa espécie de humano robotizado, que se encarreirava na multidão. Ninguém quer viver no sufoco de saber que não é aquilo que quer para a vida. Ninguém.

Fugi. Peguei no essencial e desapareci. Com ideia de não voltar.

No fundo, era um começar de novo, um andar para trás para não continuar na direcção errada.

Sem dinheiro quase nenhum, sem a segurança das dividas, sem a casa que me acolhia, sem a mulher que me amava mas que eu não entendia nem fazia feliz (só fazemos os outros felizes depois de atingirmos nós próprios a nossa felicidade).

Vagueei de norte a sul, tentei ancorar aqui e acolá, busquei caminhos e não os encontrei. E continuei a procurar, a tentar descobri que raio queria o destino que eu encontrasse.

Um dia, ia eu estrada fora, deparei-me com um homem de ar rude, mas com um olhar suave. Estava calor. Há uma espécie de atracção entre indigentes, é um código que não se aprende, mas que se sente. Ninguém partilha, mas sente-se sempre a necessidade de apoiar.

- Amigo, ainda tenho um pouco de água, mas não dura muito mais. Há por aí onde beber?

Não me respondeu. Parou e sorriu. Tinha um pano enrolado na mão direita. Resquícios de sangue nas calças.

- Aconteceu-lhe alguma coisa? Precisa de ajuda?

Agarrou-me no braço e deixei-me levar.

Levou-me por um caminho entre as árvores. Caminhámos durante uns 10 minutos sem dizer-mos uma única palavra. Havia naquele homem algo que me tranquilizava.

Chegados a uma clareira, avistei uma gruta. Pensei que fosse uma mina, uma nascente, enfim, algo com água.

Tinha a um canto alguns tufos de erva que pareciam servir de cama. Ao centro, restos de uma fogueira ainda fumegante. Ali dentro sentia um frio penetrante, em contraste com o calor que fazia fora.

Mudo, o ancião penetrou gruta adentro num estranho bailado entre as pedras, com a perfeita noção de onde colocar os pés, num caminhar seguro.

Um bando de morcegos esvoaçou sobre as nossas cabeças deixando-me aterrorizado, quase tanto como aos próprios. Que raio de ideia a minha. Bom, naquele momento, só me ocorria deixar o velho e fugir gruta fora, mas a curiosidade do ser humano faz com que a coragem aumente à medida que parece diminuir o nosso discernimento.

Finalmente, após uns, imagino bem calculados, 20 minutos de espeleologia, vislumbro uma espécie de cortina de luz. Uma parede reluzente com um feixe de luz a trespassar a gruta, penetrando ou saindo das paredes húmidas e escuras. Transformara as paredes numa esmeralda gigante que atraía com uma beleza rara e magnetizante.

Maravilhado com tal visão, distraído com tal espectáculo, deixei de ver o meu guia. Arrisquei uns passos na direcção da luz e, ao cegar momentaneamente em reacção ao breu fulminante em que, de repente, se transformara a gruta, caí. Fechei os olhos com força na esperança de iluminar o espaço ao reabri-los. Atordoado, arrastei-me para um dos lados, agarrando-me às pedras escorregadias das paredes que me ladeavam. À medida que tentava erguer-me ou deitar-me, a gruta transformava-se numa espécie de manga de borracha impelindo-me contra o tecto e paredes com uma violência tal que parecia que me desfazia em pedaços.

Devo ter desmaiado. Acordei já num espaço diferente, incrivelmente diferente, e eu, já incrivelmente refeito de toda aquela sensação de estar dentro de uma máquina de lavar gigante.

Estava numa galeria com paredes que não deviam ter menos que 10 metros de altura. Morei num 4º andar e aquilo parecia ter sensivelmente a mesma envergadura. O espaço era irregular, não tinha uma geometria oval, mais parecendo a garganta de um mamute. Das paredes escorria um líquido cristalino. Não sendo um espaço acolhedor, transmitia-me a segurança de algo superior. Talvez fosse a esperança de ser um local sagrado ou onde alguém superior viesse dar rumo à minha existência. A minha vida tinha dado tantos saltos que, depois de ver tantos filmes e ler tantos ensaios psicológicos, tinha uma réstia de esperança que o mesmo fosse acontecer comigo. É a ambição de um falhado, de alguém a quem morreram os sonhos, que venha o milagre em jeito de salvação.

O que me deixava intrigado era o velho. Onde raio se tinha metido? E se a intenção era mostrar-me algo, em que buraco se teria enfiado que nunca mais o vira? Quem era aquela peça que me levara pela mão?

Ilusões

“Andas iludido!

É tudo uma questão de reflectires sobre a veracidade de tudo isso, sobre a possibilidade de alguém pensar assim, de um momento para o outro, quase impulsionado por uma vontade que mais parece tua do que do próprio.

Alguma vez pensaste que fosse possível tal raridade?

Alguma vez achaste real a eventual conversão do Homem ao que é justo, ao que o preenche?

Alguma vez imaginaste alguém ser coerente com as suas ideias e sentir-se completo e feliz?

Alguma vez sentiste que isso da felicidade suprema seria concretizável, mesmo parecendo tão à mão?

Pensas porventura que a química de que se fala tem alguma coisa a ver com os pensamentos ou com os sentimentos?

A química é exacta. Nunca oxigénio com ferro dá água. Oxida, enferruja.

A química nos relacionamentos não passa de ilusão, não passa de pura experimentação.

E isto de acharmos que algo que nos aparece é certo para aplicar aqui e ali, na nossa vida nem sempre o é. Algo que queremos forçosamente que faça parte do que desejamos.

Mas não.

É como quando procuras algo muito pequeno num areal extenso. Qualquer coisa diferente da areia te vai parecer o que procuras.

O segredo é deixar de procurar. Deixa a busca, não a faças. O destino encarregar-se-à de te abrir a porta certa, ou de te mostrar uma luz.

Um dia hás-de seguir uma das luzes. Hás-de seguir uma sem duvida.

Porque não há cego que não queira ver. E o que não vê com os olhos há-de ver com a alma, nem que tenha que a queimar.”

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Amor também é tristeza

 

As linhas que te escrevo

Não são para me lamentar.

São apenas para deixar registo

Do meu tortuoso caminhar.

Sei que não sou aquele que acompanhas,

Mas sou seguramente aquele que amparas e alegras,

Com um perfume que sai de ti, como odor de um ramo de flores

Que trouxeste à minha vida.

 

Porque quem ama sem poder tocar quem tanto anseia

É como um desajeitado jardineiro

Que sem saber porquê

Detêm-se a observar o crescimento das flores

Sofrendo quando não vê que se desenvolvem como se não as visse.

 

Sei que és mais que um jardim

Que não te falta beleza,

Mas os ramos que deixaste em mim

Deixaram-me a sensação

Que o amor também é tristeza.

Partiste

 

Ardo em lume brando

Com a tua ausência.

Depois de ti o vazio, tal a falta

Tenho um vazio no coração que aumenta com o silêncio.

A corrente de ar que deixou a tua partida, gela-me as veias de penosa espera.

 

Deixaste na minha face um leve toque do teu ser

E contigo levaste a acalmia do mar em que meu ser navega.

És um mar calmo e cristalino

Que acumula a pressão de tanto te querer

E quando te tiver, explodirei de paixão

Qual géiser de emoção contida pela vida

 

Pode o mundo acabar

Pode até acontecer ter de nunca mais te ver

Mas não poderá o destino tolher aquilo que mais te quero dizer

Se hoje acabasse o mundo, dava graças por ter tido

A grandeza de conhecer o rosto do amor

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Encontrei-te, vi-te, cheirei-te…

 

Encontrei-te, vi-te, cheirei-te…

 

Encontrei-te no céu de um dia tempestuoso,

Com essa aura que me retrai, que me faz parar

Com a simplicidade do que é belo espelhada no teu olhar

Esse teu corpo de sereia que vagueia nos mares do meu pensamento

Esse teu peito que alberga o coração que anseio

Que bate em perfeita sintonia com o teu ser

 

Vi-te como quem vê o sol raiar por entre as nuvens e se reflecte nos teus olhos

Como perfeita sinfonia do vento que bate forte e acaricia teus cabelos

Vi-te como cativeiro de meu coração prisioneiro

 

E num simples adeus, se a Deus pertences

Que me dê mais um dia para, num dia perfeito

Te poder ver, sentir e tocar.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Será assim que o sentes?

 

Imagino um quadro assim, tão quente como o inferno

Tem que ser obrigatoriamente escaldante, intenso e poderoso

Pornográficos são os meus mais íntimos desejos

Que de tão intensos me falta a saliva para os acompanhar

Sinto que te levo pelo toque da minha língua na tua fina pele

Sem que consiga controlar o ímpeto que me leva a arfar entre as tuas pernas, que sem controlo apertas

É um fogo tão ardente como premente

Que te leva a praguejar pelo adiar constante

Do orgasmo iminente!

 

Será assim  que o sentes?

Ou de tão esperado, pornográfico será o momento

Em que de tanto querer-te

Me leve, de anseio, a desfazer em moléculas.

 

Quero antes que o sintas

Nos momentos em que me não tens;

Junta a tua vontade à minha e imagina:

Percorre teu corpo com o tacto distante

De teus dedos suaves

Imagina que sou eu que lidero essa auto carícia.

 

Que não seja um pornográfico masturbar

Como fazermos amor não será nunca vulgar!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O Umbigo

 

Tenho na mente uma imagem de um umbigo.

Por muito que pareça miragem, subo até que te digo:

Por aqui há dois montes onde me posso perder

Talvez até, quem sabe, me possas deixar morder.

 

No pescoço paro e saboreio o agradável paladar

Enquanto tu, ansiosamente, gemes, suspiras…

E pedes-me para não parar!

 

Afago-te o cabelo e beijo-te lentamente

Nossas línguas enroladas

E o fogo já ardente…

 

Enquanto em mim te fundes

Numa sonhada união

Peço-te que não me acordes

Desse sonho de paixão.

 

E quando alguém me pergunta

Qual o ponto de partida

Eu respondo com esse ponto que junta

O embrião ao ser que lhe dá vida.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Loucura de vida

Pode alguém enlouquecer sem razão?

Pode a loucura ser um impulso da paixão?

Pode a paixão ser o combustível da loucura, que com achas, atiça a vontade de fazer sem pensar?

Pode o desejo vencer a razão?

Pode o desconhecido sobrepor-se à segurança do adquirido?

Pode!

Porque para se enlouquecer há sempre uma razão!

Porque para amar é preciso estar loucamente apaixonado!

Porque fazer sem pensar é viver!

Porque o desejo não tem justificação!

Porque o adquirido nunca é o amor!

O amor constrói-se de uma paixão louca, onde não há razão, onde o impulso nos guia e o desconhecido nos atrai!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Capítulo III

Perto da aldeia descaracterizada dos avós havia uma outra que andava para visitar há meses, depois de ter visto um artigo sobre o projecto de recuperação que ali nascia. Saiu do caminho que levava e encaminhou para lá o carro.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Capítulo II

Passou muitos fins de tarde naquela empena a espreitar os últimos raios de sol por entre as oliveiras, com o avô.


Raramente se ouve falar da empena da casa, mas aquela era uma zona nobre. Dava para a pequena horta de cômaros minúsculos, decerto feitos com sachos igualmente pequenos. Adivinhava-se que ali a água chegava mansa, serena.

Do que falavam? Não se recorda. Recorda-se, sim, que muitas vezes o avô ficava a mirar as mãos, a mexê-las… um exercício de descontração, à medida que vagueava o espírito… a avó tinha o mesmo hábito. Teria sido adquirido com a convivência entre os dois ou comum a todos aqueles que se habituaram a viver com pouco mais que nada?


A aldeia era menos povoada que naquela altura; restavam os velhotes e alguns casais mais novos com filhos pequenos… os putos não sabiam que havia todo um mundo lá fora que lhes estava vedado por viverem naquela bonita terra mas afastados de tudo. A televisão e as breves incursões na internet permitiam-lhes olhar essa realidade apenas de relance, como se de um filme se tratasse.

Mercê da breve escolarização, alguns não sairiam sequer dali e o ciclo perpetuava-se por mais uma geração. Iam trabalhar na terra ou numa das fábricas que por ali surgiam... eles também na construção civil, elas também nos serviços. Iam casar, ter filhos e aceitar a vida como ela era, sem se questionarem, iam deixar de sonhar.


Ela, sempre se questionou. Quando apanhava o autocarro para a escola olhava as pessoas e questionava-se acerca de tudo. Ficava a olhá-las e pensava que a vida era mais que aquilo. Mais o quê?


Questionava-se sobre tudo, do mais pertinente ao mais pateta. O João Jorge, um colega de liceu que tinha por ela uma paixão assumida, dizia que ela pensava demais. Dizia aquilo como se fosse uma espécie de doença que ela devesse tratar. E naquela altura ela acreditava que era. Bom, pelo menos algum distúrbio.


Hoje, sabia que ele era uma daquelas pessoas que ela via no autocarro. E o pensar demais que a apoquentava naqueles anos... bom, era o motor que a fazia avançar.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Capítulo I

As botas de borracha enlameadas pisavam o chão de paralelos irregulares. A estrada era ladeada por muros de pedras, de onde saíam ervas rasteiras e tufos de musgo.


Sabia bem o ar frio na face depois de dois dias de completo isolamento. Parou o carro quando chegou, descarregou os sacos e fechou-se em casa, no aconchego da lareira e do casaco velho com borbotos. Saiu agora que a lenha começava a escassear.

Estava a precisar deste refúgio. A agitação, a festa em que andava constantemente pouco tinham a ver com o que realmente sentia. Sentia-se cada vez mais uma carapaça oca.

Pousou a lenha no canto, preparou um lanche e voltou para o sofá. Tentava convencer-se de que não estava assim tanto frio para despir a roupa e tomar um banho.

Estes dias de férias foram providenciais, e que melhor sítio para se reorganizar que a casa dos avós maternos – suficientemente longe, suficientemente isolada.

Caiu uma mensagem no telemóvel- a segunda desde que veio. Deixou para ler depois.
Os quatro canais da TV não permitiam grande escolha a estar hora do dia, mas a pensar nisso trouxe alguns filmes para ver no computador. Por agora, lia um livro, com o ruído da televisão em fundo.

Apesar da distância, o pensamento tornava. Mas não era para isso que ali estava? Não era para pensar e repensar, para cansar-se de pensar, para esgotar-se e recomeçar de novo, cabeça limpa?

Olhando para trás, toda a sua vida amorosa lhe parecia ridícula. Ridículo, até, dar-lhe esse nome. Não queria juntar ao rol mais uma história semelhante, mais um falhanço.

Sempre que se encontrava com o Pedro esta determinação estava firme no horizonte. Saíam apenas entre amigos, diluídos num grupo, mas a determinada altura acabavam inevitavelmente os dois a conversar. Sentia-se sugar pelos olhos dele. Sorriam-lhe, tinha a certeza. E não conseguia evitar sorrir-lhe de volta. Por muito determinada que estivesse, por muitas barreiras que erguesse… acabava com a alma nua, indefesa. Uma e outra e outra vez.

E isso tinha que acabar. Exigia disciplina, apenas. Exigia mais determinação. Treino. Sozinha com os seus botões, tinha todo o tempo do mundo e uma imensidão de espaço para se mentalizar da sua nova meta, condicionar os caminhos do pensamento.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

3º Capítulo

20h27!

Porra! 30 minutos para tomar banho, fazer a barba, vestir um trapo e ir buscar a Monique para o prometido jantar.

Como sempre, o último cliente entra depois da casa fechada. Numa terra onde todos se conhecem, negar um desenrasque era dar mais um empurrão ao negócio na direcção do abismo.

Barba não. Ficou como estava. Afinal, a minha companhia para a ceia tinha um ar tão informal que, provavelmente não se chocaria. Banho? É melhor. Sempre fico mais fresco e sem cheirar a cebola, pensei para com os meus botões, verdadeiros companheiros de esclarecimento de dúvidas.

Depois do divórcio, até a comichão nas costas perdi. Casado, era o meu pedido usual: “Amor, coças-me as costas?”. Ficamos sós, perdemos hábitos que custam a esquecer e ganhamos destreza para tarefas impossíveis de concretizar a solo. Como decidir o que vestir. Ou o que calçar. Enfim…

Custou mas lá enfiei uma camisa ataviada por dentro das calças de ganga que tanto conforto me proporcionavam. Um blusão para agasalhar da humidade e guardar a carteira e lá fui a correr ter com a minha nova hóspede.

Tinha telefonado ao Sr. Alfredo que me preparou a mesa com um toque de ocasião. A sala pequena, com a televisão já a debitar decibéis distorcidos pelas intermináveis horas de uso, tornara-se numa espécie de taberna à antiga, com carnes de fumeiro penduradas na espécie de telheiro que cobria o bar. Com a lareira a consumir a lenha como se fosse jornal, tudo ali parecia uma espécie do que afinal não era: Um restaurante. Para mim era apenas a sala de jantar. Onde descansava enquanto jantava, e conversava com, como tudo aquilo, uma espécie de família.

Entrei com aquele monumento Dinamarquês e tudo parou. A Dª Emília, esposa do Sr. Alfredo, sorriu e saiu-se com uma espécie de francês que tinha aprendido lá pela Gália. Ri a bandeiras despregadas com o ar de espanto da Monique sem saber o que responder. Pudera! Aquela espécie de pronuncia dava à conversa um tom imperceptível para qualquer ser vivo.

Jantámos um robalo ao sal. Verdadeiro petisco, regado com um vinho verde fresco, depois de algumas entradas que a deixaram deliciada. As conversas mantiveram-se pelas circunstâncias de quem ainda não se conhece. O tempo não dava para mais. Deixei-a nos seus aposentos, meia fustigada pelo licor de mel da Dª Emília que lhe prometeu um bom preço para as refeições.

Continua…

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Rascunho

As botas de borracha (a que agora chamavam galochas) pisavam os paralelos cimentados pela terra molhada.

Interrompeu o recolhimento para ir buscar lenha à mata. Parou o carro junto à casa quando chegou, há dois dias, descarregou a mala e não tinha ainda saído de casa, até agora.


Ficava recolhida no sofá, no aconchego do casaco de lã com borbotos e não tida sequer tomado um banho, teve apenas os cuidados mínimos para se poder suportar a si mesma.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

2º Capitulo

Sentia-me um pouco cansado.

Desde que regressara a Moledo, após a súbita morte de meu avô, tivera um chorrilho de emoções enquadrados por desagradáveis surpresas, quase sempre vindas do gerente da Caixa.

Os pequenos negócios familiares tinham-se tornado em esponjas, que além de nos sugarem o tempo e a vida, ainda nos agarravam com todas as memórias e vidas que ali se consumiram.

Era como que um desígnio herdado. Meu avô, herói da 1ª Grande Guerra, havia combatido na batalha de La Lys. Combatido não era o termo adequado, como fazia questão de dizer; estava no Batalhão da Retaguarda, no Depósito de Subsistências, daí herdando a árdua tarefa de gerir alimentos. Árdua sim, porque então o racionamento era a palavra que melhor definia a distribuição dos alimentos.

Quando os Ingleses se esqueceram de proporcionar barcos para o transporte das tropas que iriam render o 1º Corpo Expedicionário Português, os militares que restavam, pouco mais de 8 dos 20 mil que tinham ido para a Flandres, limitaram-se a sobreviver.

Tinha ganho aí o rigor e avareza que lhe davam o perfil de gestor ideal.

Naquele tempo, era um dos homens mais influentes da terra, o dono da Loja. Onde tudo se comprava, que era posto de correio, de polícia e casa do povo. Taberna humilde e limpa, que sempre arranjava um belo petisco para matar a fome a quem a tivesse.

Aquando da 2ª Grande temia-se que os filhos dos que tanto tinham sofrido, fossem igualmente sujeitos ao infortúnio da guerra. A neutralidade que Salazar granjeara para Portugal, proporcionara  paz,  mas trouxera miséria e a escassez de alimentos. Tudo era racionado.

Meu pai, jovem, com uma educação humilde, tinha ido para o Porto viver com uma Tia. Enfermeira de formação, casada com um Médico, tinha posses para o educar, espelhando nele o que tinha desejado para os dois filhos que tinham morrido com Febre Tifóide, a praga da época, que tantas crianças matava. Tinha aulas em casa e saía em exclusivo, ao Domingo, com a tia, para ir à missa.

A convivência com meu avô limitava-se aos meses de verão. Nunca trabalhara na loja. Até se formar e voltar a Moledo para casar.

A Medicina deu-lhe a frieza e arrogância com que olhava o mundo. Dizia que não curava ninguém. Achava que a sua profissão era uma arte que se limitava a encontrar as causas dos males dos pacientes e definir-lhe o tratamento adequado. Nunca foi verdadeiramente feliz depois da morte de minha mãe. O álcool e tabaco em excesso deram-lhe um triste destino antes dos sessenta anos.

Parecíamos uma família votada à desgraça.

Minha avó achava que tudo não passava de uma maldição. Tinha perdido o rasto a quase toda a família. Foi ali casar, depois de umas férias com uma família abastada de Viana do Castelo. Não lhe pertenciam, mas batiam-lhe desde miúda. As criadas, naqueles tempos, eram mandadas pela família para servir e aprender as lides domésticas. Cresciam com os filhos dos patrões e acompanhavam-nos no verão.

Depois de casar, foi uma verdadeira mulher minhota. Têm fama de autoritárias e rudes. E era. Autoritária, trabalhadora e companheira incansável do velho.

E eu, filho e neto único, via-me de repente só, num mundo que me tinha proporcionado tudo que poderia querer. Tendo sido, praticamente, criado pelos meus avós paternos, tive uma vida quase perfeita. Cresci numa bela terra, de gente humilde, com visitas ilustres no verão.

De paixão em paixão, na sua grande maioria de verão, até uma que me fez render à ideia do “felizes para sempre” que não chegou ao felizes, muito menos ao para sempre.

Depois da completa vida académica, do emprego que me garante o futuro, o regresso à terra para decidir o que fazer com o moribundo negócio de família. A obrigação de fazer uso de uma licença sem vencimento, dava-me tempo para reflectir a melhor solução, não me dando contudo, o à vontade suficiente para me manter em suspenso dos meus caprichos. O dinheiro que o Heitor deixou tinha um estranho traço no saldo que, diz o senso-comum, indica negativo. A casa, velha de mais para render fortuna, deixava mais um horizonte de despesa que de receita.

Enfim, estava como a família Moreno: Por um fio.

Continua…

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

...

Hoje é um daqueles dias em que me sinto disfarçada de Zé Manel.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Primeiro capitulo

Ela chegou num dia solarengo. Daqueles que nos deixam apenas algumas horas de aconchego do astro-rei. 

Abeirou-se da porta e perguntou:

-O senhor é capaz de me informar se existem casas para arrendar?

Trazia uma única mochila, uma daquelas que os escuteiros usam para levar todo o equipamento para os acampamentos. Parecia curvada, não pelo peso, mas para sentir que tudo ainda estava ali, encostado a si, não fosse alguém tirar-lhe algo fundamental da bagagem. Tinha ar de nórdica. Olhos verdes, cabelo escuro, com algumas brancas a despontar. Era esguia, com corpo escondido pelas roupas mais cómodas que vistosas, como a caminhada constante exigia. A pele branca fazia adivinhar pouco tempo de viagem.

-Não conheço nenhuma, respondi.

Porque raio é que todos acham que o merceeiro tem resposta para tudo? O meu avô era uma espécie de confessor, banqueiro, guia turístico, bibliotecário e carteiro da terra. Eu, que tinha regressado aquando da sua morte, não tinha nem a vivência necessária, nem o conhecimento obrigatório para desempenhar o lugar com a destreza e sabedoria que ele espalhava. Tinha regressado há apenas seis semanas e as casas desocupadas eram de turistas sazonais. Turistas que, como eu, para ali se deslocam nos fins-de-semana de calor, ou nas férias.

O inverno é incómodo à beira-mar, apesar de belo. Senti, nos anos de ausência, a falta das tempestades, do constante agitar das águas por um soprar forte e poderoso. É o encanto que transmite a quem cá vem quando em passeio, quando não é o destino que cá nos coloca.

-Que chatice! Já não sei onde mais procurar.  O parque de campismo está encerrado durante o inverno, dizia-me num português com sotaque de bife, e não encontrei ainda nenhuma residencial ou pensão.

-Posso ceder-lhe um dos quartos aqui atrás.

Tinha nas traseiras da mercearia uns anexos que o meu avô usava para guardar mercadoria no tempo em que a distribuição era uma utopia para quem vivia longe dos grandes centros urbanos. Eram transformados em quartos, quando algum dos meus 9 tios vinha de surpresa com família ou amigos. Já não havia era aquele amontoado de sacos de serapilheira que serviam de travesseiro.

-Não lhe garanto é que não tenha um encontro com um dos meus gatos durante a noite.

-Sempre é melhor do que arriscar dormir ao relento na praia, exclamou de alívio. Os encontros na areia são sempre mais imprevisíveis. E corro o risco de, caso chova, apanhar uma gripe. Se não me levar muito dinheiro, aceito a oferta.

-Paga o mesmo que pagaria no parque, que seria…

-Este, não faço ideia. Normalmente 5€ por dia. É inverno…

-Então estamos combinados. Paga o mesmo. Venha.

Fechei a porta e dirigi-me com ela à “tulha” como chamava a minha avó ao espaço onde tudo estava guardado. Inclusive os guarda-sois já inutilizados pelas intensas nortadas. Dizia o meu avô que sempre serviam para peças.

O espaço era exíguo. A porta, com não mais de 1,70 M sempre me dificultou a entrada. Perdera já a conta às cabeçadas que dei naquele aro de madeira de carvalho. Para a minha nova hóspede, a dificuldade era similar.

-Tenha cuidado para não bater com a cabeça, isto parece a casa de um anão.

Acendi a luz para vislumbrar melhor o que teria de transformar para acolher uma pessoa e, ainda por cima, cobrar-lhe dinheiro. Contornei a velha arca do arroz e estiquei os braços para abrir as pesadas portadas da janela. Quase que não conseguia tirar a barra de ferro que garantia que não se abririam com as frequentes intempéries, de tão ferrugenta.

Tinha uma magnífica vista sobre as dunas. Ao longe podiam vislumbrar-se alguns barcos de pesca, daqueles com não mais de 4 tripulantes, que se aventuram no mar durante o dia em busca de faina lucrativa. Douradas, robalos ou rodovalhos que depois vendem ao Sr.Alfredo que os grelha como ninguém. O sol distante de inverno emprestava um amarelo que encanta. As gaivotas gritavam o seu apelo para que o peixe que ainda não tinham comido, voltasse para a tona da água. O céu, no horizonte trazia tormenta.

-Vamos ter chuva, disse-lhe.

-A vista aqui é realmente inspiradora, retorquiu maravilhada pelo quadro que se lhe deparava.

Combinámos jantar juntos, depois de termos arrumado a tralha que cobria a pequena cama de solteiro. Arranjei um candeeiro para colocar por cima da velha escrivaninha onde o velho Heitor fazia o arquivo das responsabilidades da mercearia e os calotes dos clientes. Sobrava espaço apenas para colocar uma cadeira que seria usada como armário e sapateira. Era o que se podia arranjar.

-Terá que utilizar a casa-de-banho aqui de fora.

-Tal e qual como no campismo, disse-me num tom descontraído, como se tudo aquilo fosse uma dádiva dos deuses.

…continua…

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

I gotta feeling!

Musica e movimento tão bem combinadas.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sei a que pele a minha pele responde.

Dias

Já viste que os dias estão mais curtos?

Encurtam os dias e aumenta a minha dor.

A dor vem com a noite.

Com o crepúsculo aumenta a minha ansiedade, o temor de te não ver.

É um dia que termina mais cedo e que, sem sabor, leva o que resta de sol e luz, que com a tua ausência me causa ardor.

Ardor que é grande nas noites que sem ti, levam o encanto e as estrelas, e as cadentes esperanças de um dia te voltar a ter.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Olhos postos no futuro...

Quando andava na primária, um colega de turma partiu um braço e teve que ser engessado. O braço direito, mais propriamente.

Era dextro e por isso viu-se e desejou-se para escrever com a mão esquerda nesse período.

Eu, miúda esperta e sempre atenta, olhei para aquilo e comecei a pensar na vida… e se me acontecesse algo parecido?! Nah… a mim não me apanham desprevenida… Toca de começar a escrever à canhota!

A minha prima (formalmente prima mas com mais jeitos de tia) viu aquilo e perguntou-me o que se passava… e eu disse, orgulhosa: “O Paulo Mourato partiu um braço e agora tem que escrever com a mão esquerda e não consegue… e então, por causa das coisas, eu estou já a aprender a escrever à canhota!”.

Não sei porquê, mas o certo é que levei um valente estalo. Não sei porquê até hoje, mas também não guardei mágoa. E até me rio quando recordo.

Não voltei a tentar escrever com a mão esquerda (aprendi a lição, fosse ela qual fosse…) e ainda bem que nunca cheguei a partir o braço nem a mão nem o pulso… andei engessada no Carnaval passado, mas só para compor a personagem… pronto, confesso, foi uma fantasia que ficou daquela altura…

Mas, vistas as coisas, fiquei com um handicap que podia muito bem ter superado… porque não me deixaram aprender a escrever à canhota?! Hoje seria uma desenrascada ambidextra… quiçá se não conseguiria até escrever em simultâneo com as duas mãos… mas não, a minha prima cortou a minha proactividade pela raiz…

Felizmente noutras ocasiões passei mais despercebida. Via as senhoras a arranjar os pêlos ali próximo dos olhos e achei que também eu tinha que tratar de mim. Mas o que era aquilo que faziam?!

Hum… já estava a ver como era… peguei na tesoura e comecei a cortar as pestanas. Não sei se o fiz uma vez ou se repeti o feito, como convém aos bons tratamentos de estética. Não fui apanhada por ninguém a fazê-lo e, por sorte, não furei um olho.

Mas, vai-se a ver, hoje aí andam a pôr pestanas postiças e a comprar rímel de alongamento, enquanto eu… bom, eu passeio-me alegremente pestanuda :) :) :)






quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Microclimas – II

Os microclimas existem na cabeça de cada um. Senão vejamos:

Não é aí p’rós lados da Vieira, mas conheço gente (muita) que quando tem alguma coisita, é sempre diferente. Têm uma renite (que não passa de uma mera sinusite), passa a “ terrível renite alérgica!”; o ar do mar ajuda todos menos a essa raridade habitante do microclima.

Um tipo respondeu-lhes torto, era um gajo “… muito maior que tu!” (eu meço 1,87m, há imensos gajos maiores que eu em Portugal, e aparecem sempre nessas ocasiões…), levou um chapadão com micro trovoadas, tombou.

Compraram um carro, é uma micro maravilha da tecnologia. Conheço um tipo que, quando constatou que chovia dentro do seu Audi de 60.000€ nem reclamou, tal era a vergonha de admitir tamanho absurdo.

Está calor? Claro que no microclima estava muito mais.

Está frio? Sabes lá o que é frio…

Ele há com cada um…

Os microclimas não passam de mesquinhez que é típica do nosso povo, que de burro, nunca aprende; passa toda a vida a superar quem os tenta ensinar.

Já dizia a minha avozinha: “Só não aprendem os burros!”

A minha avó não era da Vieira…

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Há coisas fantásticas…

Não tenho escrito, mas tenho andado por aí.

Cá vai um achado de musica feita da forma mais simples que se possa imaginar.

Simplesmente espectacular!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

...

O que é feito da pessoa que eu era há uns... 7, 8 anos atrás?
Não sei, perdi-a, diluiu-se no tempo.
Se tenho saudades?
Não.

“O quase "

 

Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no Outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto.

A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados.

Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Prós erros há perdão; prós fracassos, chance; prós amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.”

Luís Fernando Veríssimo

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Ontem predador



Sou predador. Sou jogador. Jogo com as pessoas.

Defino metas e divirto-me a manipular os factos, as palavras, o tempo, as emoções.

Jogo. Surpreendo-te, aparecendo, prendo-te com as minhas ausências.

Eu próprio confundo o que é falso e genuíno em mim. O jogo mistura-se com a realidade. Sou como um actor com vários papéis, guiões variados no palco da vida. Eu decido que personagem assumir, de acordo com quem vou contracenar. Escolho as vestes, o olhar, o toque.

Planeio, ao pormenor, a intensidade com que te abraço.

Talvez seja este o meu eu mais verdadeiro, aquele que constantemente se reinventa. Mau carácter? Não. Não te quero mal. Quero simplesmente jogar, testar-me, ver até que ponto te rendes a cada palavra, a cada carícia. Testo-me e aprimoro-me.

Para. Para mostrar a mim próprio e aos outros. Sim, troféus. Pequenos troféus.

Gosto de sentir o saborzinho a desafio enquanto te manipulo... a marioneta que responde a cada cordel que puxo ou deixo lasso. Que largo e volto a pegar quando a cena reinicia.

Sim, é pelo sentimento de domínio, de poder.

Um desafio que faço e vou repetindo a mim próprio. Um jogo em que apenas eu sei que jogamos. Um isco que lanço e aguardo para ver o que me traz de volta.

A presa, o peixe depois de emergido, brinco algum tempo com ele, vejo-o debater-se e lanço-o de novo à água.
Vivo? Morto? Não sei.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Feliz

 

Gosto de ver e sentir felicidade no teu olhar, no que veio e há-de vir;

Gosto porque te eleva o espírito e te faz a alma sorrir;

Gosto porque de anseios e medos a felicidade te mostra o melhor;

Gosto porque, afinal, a vida também te dá amor.

Gosto porque de ti, espero e quero, sempre, o esplendor!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Menino que sonha ser grande

Tu menino que sonhas ser grande

que anseias que o tempo voe e o futuro se antecipe à demanda dos tempos;

Espera antes que o teu passado te mande

para uma vida de sonhos adiados, mas com presente seguro e futuro ansiado.

Porque embora com direito a sonhar

deviam dizer-te que de sonhos pequenos

se tornam grandes as ilusões;

E com os passos que deres e caminhos que percorreres

constróis a barragem onde vão parar

todos os sonhos que queres desaguar.

terça-feira, 22 de setembro de 2009



Take I:
Chegados ao fim, entre angústias, vontade de ir e de ficar, de prender e de libertar(-se), ele diz:
- Nunca ninguém vai amar-te como eu te amo!

Take II:
Chegados ao fim, entre angústias, vontade de ir e de ficar, de prender e de libertar(-se), ele diz:
-Nunca vou amar ninguém como te amo a ti!

O que dizem estas palavras sobre a personagem que as profere? O que dizem sobre o que existiu entre os dois? O que revelam acerca do desenrolar futuro da história? Para onde levam a vontade de ir e de ficar?

Para o nosso livro, qual escolheríamos?

Into the wild

Claro que um livro também é música, que se transforma enquanto o lemos.

Transformemos este blogue em música, com quem gostamos, com quem nos dá conteúdo, e acima de tudo, nos preenche os dias, o imaginário, e nós, com gratidão, assimilámos conhecimento e colaboramos, como podemos.

Bem hajam!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Agradeço

A quem me deu a oportunidade de "escrever" tretas neste blog. Gosto de escrever tretas, porcarias sem nexo e sem "jeito" digamos assim. Exagero nas vírgulas, esqueço-me de expressões que uso no dia a dia, não tenho tido inspiração (se é que isso existe). Gosto mais de imaginação do que de inspiração. Escrevo o que sinto e penso sem pudores, mas de facto a exposição pública é... "coiso".
Vou permanecer atento ao que aqui se escreve. Continuem o bom trabalho.
Over and out!

Texto sem clip de vídeo não é texto porra!



Por vezes um pouco de Caos na nossa vida é obrigatório! Quebra a rotina!
Fiquem bem.

"Bestas", "filmes", "segredos" e o "alternativo".

"Bestas"
Espécie predominante na noite Leiriense. Têm como objectivo (na minha opinião), falar e comentar sobre a vida dos outros, sem nada saber. Conseguem por vezes irritar tanto uma pessoa, que o melhor mesmo é beber mais uma "rata preta", e fingir que não se ouve o que dizem. Tentem! Depois de várias "ratas pretas" com Gin´s à mistura já nada, nem ninguém vos consegue chatear.

"Filmes"
Fazem-se vários. De todos os tipos. Desde a típica comédia (brainless), até ao de terror e suspense, onde ansiamos pelo fim do filme. Gosto bastante dos de comédia e terror. Os de Drama, tenho que confessar que detesto... São os que se fazem mais e sem conteúdo nenhum. Ou têm um grande conteúdo?!

"Segredos"
É segredo, logo não vou falar. É mais do estilo: "É proibido, mas pode-se fazer." É melhor ficar por aqui...

"Alternativo"
"Besta" que se comporta e veste de forma diferente dos outros. Tem mesmo que ser diferente. Só porque sim ou porque fica bem. T-Shirts às riscas pretas com uma porcaria qualquer no bolso dessas mesmas T-Shirts NÃO são para um "alternativo" usar... Se possível, criticar a pessoa em questão, chamando a atenção para esse pequeno pormenor.
Temos que saber diferenciar o "alternativo", do "normal" ou até mesmo do "beto" ou "beta". Há também quem se vista e comporte somente de acordo com o que ele ou ela sempre foram. Mantêm sempre a mesma forma de agir, pensar, falar que sempre tiveram... Mas são criticados na mesma.

Pequenas definições.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

música para o fim de semana

Divirtam-se.


Soul

Now that i´ve realised, how things end, i must say: "I sold my soul for sex and gin!"
In the end...
Não o vídeo não tem nada a ver com a frase, ou sim tem... É do tempo mesmo...

Lembranças de menino

Lembro-me de medos ter sem nada temer, com horizontes longínquos sem nada ver.

Lembro-me de tudo querer sem nada obter, com vontade de buscar embora sem poder.

Lembro-me do que não tinha nem viria a ter sem poder alcançar ou sequer viver.

Lembro-me da idade em que tudo é belo, sem nada acabar com o tempo efémero de quem quer viver.

Lembro-me do menino que fui, um dia deixei de ser e gostaria um dia de voltar a nascer.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Das pessoas que atingem posições elevadas

 

Das pessoas que atingem posições elevadas,
cerimónias, riqueza, erudição, e similares:
para mim tudo isso a que chegam tais pessoas
afunda diante delas — a não ser quando acrescenta
um resultado qualquer para seus corpos e almas —
de modo que elas muitas vezes me parecem
desajeitadas e nuas, e para mim
uma está sempre zombando das outras
e a zombar dele mesmo ou dela mesma,
e o cerne da vida de cada qual
(a que se dá o nome de felicidade)
está cheio de pútrido excremento de larvas,
e para mim muitas vezes esses homens e mulheres
passam sem testemunhar as verdades da vida
e andam correndo atrás de coisas falsas,
e para mim são muitas vezes pessoas
que pautam as suas vidas por um hábito
que a elas foi imposto, e nada mais,
e para mim é gente triste muitas vezes,
gente afobada, estremunhados sonâmbulos
tacteando no escuro.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

Life goes on

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Memórias

Quem esquece, quem esmorece, quem quisesse que se fizesse da memória outra história, de quem de amor padece.

Padece, ou padeceu, porque embora enamorado estivesse, de amor não morreu.

Sentiu, possuiu, e, por fim, fugiu.

Deixou-o só, com ardor e dó, de quem uniu o amor e o destino numa memória em pó… Que no vento se diluiu!

Sociedades

Se as relações possíveis de hoje em dia são sociedades, então não quero! Não posso!
Se a nossa sociedade é assim tão fechada, tão fria, tão moralista, então também prefiro estar à parte...


Sim, adoro música, até porque sem música a vida não faria sentido. Um bom dia a todos!

Oh it's a mystery to me.
We have a greed, with which we have agreed...
and you think you have to want more than you need...
until you have it all, you won't be free.

Society, you're a crazy breed.
I hope you're not lonely, without me.

When you want more than you have, you think you need...
and when you think more then you want, your thoughts begin to bleed.
I think I need to find a bigger place...
cause when you have more than you think, you need more space.

Society, you're a crazy breed.
I hope you're not lonely, without me.
Society, crazy indeed...
I hope you're not lonely, without me.

There's those thinkin' more or less, less is more,
but if less is more, how you keepin' score?
It means for every point you make, your level drops.
Kinda like you're startin' from the top...
and you can't do that.

Society, you're a crazy breed.
I hope you're not lonely, without me.
Society, crazy indeed...
I hope you're not lonely, without me
Society, have mercy on me.
I hope you're not angry, if I disagree.
Society, crazy indeed.
I hope you're not lonely...
without me.

Society de Eddie Vedder

terça-feira, 15 de setembro de 2009

...

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

José Régio

Será o amor eterno? (seguindo o repto)

O amor, como a vida, é imprevisível, e isso é o que de mais belo e assustador ele tem.

Aqueles amores que duram uma vida inteira duraram-no dia após dia.
Vi relações perfeitas perecerem definitivamente de um dia para o outro.
Vi relações sofridas terem, depois disso, momentos de felicidade e companheirismo que mostram ter valido a pena ficar.

Vejo relações que atrofiam as partes, que as fazem minguar, enfraquecer, como se cada um jogasse numa equipa contrária, e vejo outras que parecem fazer desabrochar o que cada um tem de melhor. Que fazem crescer, que libertam, que fortalecem à medida que o tempo passa.

Vejo pessoas que andavam perdidas, meio sem rumo, que saltavam de relação em relação… e depois pousaram numa nuvem de estabilidade, felicidade, encontro, o porto de abrigo em que cada um faz do outro um ser melhor, em que é um bálsamo, lhe dá força.

E não tem a ver com quem somos e com o que pensamos da vida, se virmos que solteiros/as militantes são por vezes convertidos/as a companheiros/as e pais/mães…felizes, porque são esses que aqui interessam, os felizes.

E lembro-me do Johnny Depp… um solteiro militante, errante, símbolo sexual, convertido a companheiro e pai feliz (e ainda símbolo sexual)… dia após dia, há mais de 10 anos. Mas vejo amores assim também aqui, muito mais próximos.

Vejo relações que se fecham sobre si, sobre os dois, sobre os filhos que chegam, porque agora passa a ser tudo mais difícil de articular. Porque assim é ou porque agora é esse o pretexto utilizado para a postura que já antes existia.

Vejo relações em que a mulher perde o seu tempo livre e a disponibilidade mental para dele dispor porque o marido ajuda (põe a mesa), e deixa a roupa, a loiça e a casa (dos dois) para ela cuidar… vi relações em que partiram do mesmo ponto de partida profissional e em que ele chegava a casa e investia na carreira e deixava para ela, naturalmente (!) o fazer o jantar, a roupa, a casa. Vejo relações em que ela se senta, egoísta, no sofá, enquanto ele trata de tudo isso.

O amor é eterno? É eterno enquanto dura. E assim pode ficar pelo caminho após o primeiro embate, na primeira semana, ou dia após dia, durar uma vida inteira.

O amor quer-se, acima de tudo, feliz. Na balança do deve-haver, positivo.
Uma vida feliz e preenchida, em que a soma dos dois faz um melhor resultado do que o percurso de cada um por si. É esse o amor que se quer.

A vida está aí para ser bebida – a sós, plenos, ou com cara-metade, igualmente plenos.

Mas bebendo o que de melhor ela nos oferece em qualquer uma das condições.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Amor não pode implicar interesses



You Don't Know What Love Is

In some respects
I suspect you've got a respectable side
When pushed and pulled and pressured
You seldom run and hide
But it's for someone elses benefit
Not for what you wanna do
Until I realize that you've realized
I'm gonna say these words to you

You don't know what love is
You do as your told
Just as a child at ten might act
But you're far too old
You're not hopeless or helpless
And I hate to sound cold
But you don't know what love is...
You just do as your told

I can see you man
Can't help but win
Any problems that may arise
But in his mind there can be no sin
If you never criticize
You just keep on repeating
All those empty "I love you's"
Until you say you deserve better
I'm gonna lay right into you

You don't know what love is
You just do as your told
Just as a child of ten might act
But your far too old
Your not hopeless or helpless
And I hate to sound cold
But you don't know what love is
No you don't know what love is
No you don't know what love is

You just do as your told
You do as your told
Yeah

White Stripes

domingo, 13 de setembro de 2009

Imaginário

Fazes parte do meu sonho.

Imagino-te alguém que me trará paz e acalmia ao tumultuoso mar em que se transformou meu coração.

Será?

Queria muito que sim. Que o fosses.

Que soprasses ao redor e transformasses em brisa a tormenta que me rodeia.

Imagino-te calma, límpida e transparente que, mesmo profunda, vejo os corais onde as pérolas descansam e repousam à espera que o valor devido lhes seja atribuído.

É a paisagem idílica que me transmites. A de um recife de corais onde as algas se movem lentamente, num pavoneio de orgulho, que alimenta a biosfera como tu me alimentas o imaginário.

És a paisagem perfeita.

Serás?

Imagino que sim.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O verdadeiro Amor

Perdoem-me. Eu ando a colaborar pouco, mas apetece-me partilhar um plágio. Quer dizer, não é bem um plágio, é mais uma citação, um trecho de um texto que condiz com o que aqui se escreve. E que me diz muito e convosco quero partilhar. É uma bonita forma de amar, a partilha.

Então, cá vai:

“Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio,não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também." "Elogio ao amor (Miguel Esteves Cardoso )"

Não conseguia explanar melhor, também eu acho que as pessoas perdem a vida a tentar amar e não amam enquanto vivem. Dão tudo pelo que conquistaram e deixam, muitas vezes, fugir o que queriam conquistar em nome de um amor que não existe, que acabou e que, ilusoriamente querem manter. Amar não é ficar. Ficar, às vezes, é gratidão que não mostra amor, só compreensão. E o Amor, o verdadeiro, aquele que arde sem se ver, esse, vai passando e ficando apenas no nosso coração, na nossa Alma que imagina como seria amar livremente. A sociedade destruiu o verdadeiro amor, nisso o Miguel Esteves Cardoso tem toda a razão. Mas não nos resignemos, vamos amar. É o melhor que a vida tem!