sábado, 6 de março de 2010

4º Capítulo

Semanas depois, e já convencido que não tinha chegado a diva que me faria assumir, de novo, um compromisso, continuava na luta inglória que me levaria ao fim.

Estava apenas, sem o saber então, a duas semanas de mudar de rumo. O negócio arruinado, a família inexistente, um futuro negro e sombrio esperava-me. Os homens quando não têm projectos de vida, quando não se ocupam a tentar, vacilam. E às vezes caem.

À noite quando me deitava olhava o tecto sombrio, com manchas provocadas pelo excesso de humidade da velha casa, e via uma espécie de futuro sombrio…

Foi então que decidi fugir. Veio-me à cabeça um turbilhão de visões, vi-me de repente agarrado a uma vida frustrada que, por cobardia, tinha mantido.

A facilidade com que aceitei todo o sofrimento que até então tinha acumulado e gerido. Não sofria por querer, sofria por me alhear.

Sofria com tudo o que achava que tinha escolhido bem. Tudo o que me tinham ensinado a escolher. A estabilidade não podia ser assim tão dura, tão insensível, tão previsível.

O meu regresso a Moledo tinha sido o último passo no trilho que tomara havia já muitos anos.

Casei com quem achei que seria capaz de construir comigo um mundo só nosso. Mas era uma opinião influenciada por todo um karma gerado pela sociedade que me rodeava.

Estudei o que achava ser o melhor para o meu futuro.

Vivi da forma mais comum e certa que se pode imaginar.

Vida de merda foi o que foi.

Quantas e quantas vezes me deitei a pensar nos meus desejos, sonhei com os meus anseios e acordei num pesadelo. Tornei-me num autómato, numa espécie de humano robotizado, que se encarreirava na multidão. Ninguém quer viver no sufoco de saber que não é aquilo que quer para a vida. Ninguém.

Fugi. Peguei no essencial e desapareci. Com ideia de não voltar.

No fundo, era um começar de novo, um andar para trás para não continuar na direcção errada.

Sem dinheiro quase nenhum, sem a segurança das dividas, sem a casa que me acolhia, sem a mulher que me amava mas que eu não entendia nem fazia feliz (só fazemos os outros felizes depois de atingirmos nós próprios a nossa felicidade).

Vagueei de norte a sul, tentei ancorar aqui e acolá, busquei caminhos e não os encontrei. E continuei a procurar, a tentar descobri que raio queria o destino que eu encontrasse.

Um dia, ia eu estrada fora, deparei-me com um homem de ar rude, mas com um olhar suave. Estava calor. Há uma espécie de atracção entre indigentes, é um código que não se aprende, mas que se sente. Ninguém partilha, mas sente-se sempre a necessidade de apoiar.

- Amigo, ainda tenho um pouco de água, mas não dura muito mais. Há por aí onde beber?

Não me respondeu. Parou e sorriu. Tinha um pano enrolado na mão direita. Resquícios de sangue nas calças.

- Aconteceu-lhe alguma coisa? Precisa de ajuda?

Agarrou-me no braço e deixei-me levar.

Levou-me por um caminho entre as árvores. Caminhámos durante uns 10 minutos sem dizer-mos uma única palavra. Havia naquele homem algo que me tranquilizava.

Chegados a uma clareira, avistei uma gruta. Pensei que fosse uma mina, uma nascente, enfim, algo com água.

Tinha a um canto alguns tufos de erva que pareciam servir de cama. Ao centro, restos de uma fogueira ainda fumegante. Ali dentro sentia um frio penetrante, em contraste com o calor que fazia fora.

Mudo, o ancião penetrou gruta adentro num estranho bailado entre as pedras, com a perfeita noção de onde colocar os pés, num caminhar seguro.

Um bando de morcegos esvoaçou sobre as nossas cabeças deixando-me aterrorizado, quase tanto como aos próprios. Que raio de ideia a minha. Bom, naquele momento, só me ocorria deixar o velho e fugir gruta fora, mas a curiosidade do ser humano faz com que a coragem aumente à medida que parece diminuir o nosso discernimento.

Finalmente, após uns, imagino bem calculados, 20 minutos de espeleologia, vislumbro uma espécie de cortina de luz. Uma parede reluzente com um feixe de luz a trespassar a gruta, penetrando ou saindo das paredes húmidas e escuras. Transformara as paredes numa esmeralda gigante que atraía com uma beleza rara e magnetizante.

Maravilhado com tal visão, distraído com tal espectáculo, deixei de ver o meu guia. Arrisquei uns passos na direcção da luz e, ao cegar momentaneamente em reacção ao breu fulminante em que, de repente, se transformara a gruta, caí. Fechei os olhos com força na esperança de iluminar o espaço ao reabri-los. Atordoado, arrastei-me para um dos lados, agarrando-me às pedras escorregadias das paredes que me ladeavam. À medida que tentava erguer-me ou deitar-me, a gruta transformava-se numa espécie de manga de borracha impelindo-me contra o tecto e paredes com uma violência tal que parecia que me desfazia em pedaços.

Devo ter desmaiado. Acordei já num espaço diferente, incrivelmente diferente, e eu, já incrivelmente refeito de toda aquela sensação de estar dentro de uma máquina de lavar gigante.

Estava numa galeria com paredes que não deviam ter menos que 10 metros de altura. Morei num 4º andar e aquilo parecia ter sensivelmente a mesma envergadura. O espaço era irregular, não tinha uma geometria oval, mais parecendo a garganta de um mamute. Das paredes escorria um líquido cristalino. Não sendo um espaço acolhedor, transmitia-me a segurança de algo superior. Talvez fosse a esperança de ser um local sagrado ou onde alguém superior viesse dar rumo à minha existência. A minha vida tinha dado tantos saltos que, depois de ver tantos filmes e ler tantos ensaios psicológicos, tinha uma réstia de esperança que o mesmo fosse acontecer comigo. É a ambição de um falhado, de alguém a quem morreram os sonhos, que venha o milagre em jeito de salvação.

O que me deixava intrigado era o velho. Onde raio se tinha metido? E se a intenção era mostrar-me algo, em que buraco se teria enfiado que nunca mais o vira? Quem era aquela peça que me levara pela mão?

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