segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Capítulo IV

Inveja duma ovelha. Devia ser a única pessoa no mundo a ter inveja duma ovelha.


O meu pai dava-lhe mimos e falava-lhe como se fala às crianças. À ovelha que tinhamos no quintal. Chamava-se Ticha.

Sabia que era completamente desajustado este sentir, mas era assim que me sentia – desajustada. Nunca percebi porque o meu pai não gostava de mim. Perguntava-me, e angustiava-me em busca dessa resposta. A minha infância e adolescência foram vividas assim, com um pilar feito de papel sustido por fracos arames. Coxa de afectos.

Recordo do meu pai as vezes que dizia “és mesmo parva”, que ele repetia muito. Acompanhado daquele riso de desdém tão característico. Machadadas numa auto-estima que tentava construir-se.

Era boa aluna. No meu grupo de amigos, das mais dinâmicas. Éramos, todavia, os chamados totós. Bem comportados, vítimas dos mais vividos, mais sabidos, mais mal formados. Os totós. (Iríamos colher os frutos mais tarde.)

Ferida de insegurança, não sabia reagir. Tantos e tantos golpes. Tanta e tanta angústia a juntar às dores do crescimento. Intermináveis anos.

Não sei se a minha mãe tinha inveja da ovelha. Não sei, ao longo destes anos, do que mais possa ter tido inveja. Sei que sofreu. Que sofre. Perdeu o viço no olhar.

Quando era criança, e especialmente nos dias de limpeza geral, a minha mãe cantava. Cantorias acompanhadas de cheiro a cera e detergentes. Joelhos protegidos do chão apenas por um farrapo velho. Escova nas mãos. Balde de água, sabão azul. Esfregar, esfregar, esfregar. E cantar. A casa tão arejada. Móveis de pernas para o ar, colchas levantadas. Nada no chão, à excepção dum banco à entrada do corredor, deitado, a tapar a passagem. A cera em pousio. Depois passava a máquina (vuuum… vuuuumm…), e o chão ficava brilhante, espelhado. Os móveis voltavam aos sítios, as colchas voltavam a descer e escondiam agora um chão liso, sem cotão. Até ao próximo Outono.

Depois a minha mãe deixou de cantar. Nem sei bem quando. Mas sei porquê.

“És mesmo parva!” era um mimo que lhe era distribuído também a ela. A juntar à minha infelicidade tinha a dela. Ou seria mais ao contrário… a amargura da minha mãe ficava-me nas entranhas. E a partir daí o mundo era amargura.

E eu a tentar perceber. Porque não gosta ele de nós? O que posso fazer para ele gostar de mim, de nós, o que podemos fazer?

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