sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Primeiro capitulo

Ela chegou num dia solarengo. Daqueles que nos deixam apenas algumas horas de aconchego do astro-rei. 

Abeirou-se da porta e perguntou:

-O senhor é capaz de me informar se existem casas para arrendar?

Trazia uma única mochila, uma daquelas que os escuteiros usam para levar todo o equipamento para os acampamentos. Parecia curvada, não pelo peso, mas para sentir que tudo ainda estava ali, encostado a si, não fosse alguém tirar-lhe algo fundamental da bagagem. Tinha ar de nórdica. Olhos verdes, cabelo escuro, com algumas brancas a despontar. Era esguia, com corpo escondido pelas roupas mais cómodas que vistosas, como a caminhada constante exigia. A pele branca fazia adivinhar pouco tempo de viagem.

-Não conheço nenhuma, respondi.

Porque raio é que todos acham que o merceeiro tem resposta para tudo? O meu avô era uma espécie de confessor, banqueiro, guia turístico, bibliotecário e carteiro da terra. Eu, que tinha regressado aquando da sua morte, não tinha nem a vivência necessária, nem o conhecimento obrigatório para desempenhar o lugar com a destreza e sabedoria que ele espalhava. Tinha regressado há apenas seis semanas e as casas desocupadas eram de turistas sazonais. Turistas que, como eu, para ali se deslocam nos fins-de-semana de calor, ou nas férias.

O inverno é incómodo à beira-mar, apesar de belo. Senti, nos anos de ausência, a falta das tempestades, do constante agitar das águas por um soprar forte e poderoso. É o encanto que transmite a quem cá vem quando em passeio, quando não é o destino que cá nos coloca.

-Que chatice! Já não sei onde mais procurar.  O parque de campismo está encerrado durante o inverno, dizia-me num português com sotaque de bife, e não encontrei ainda nenhuma residencial ou pensão.

-Posso ceder-lhe um dos quartos aqui atrás.

Tinha nas traseiras da mercearia uns anexos que o meu avô usava para guardar mercadoria no tempo em que a distribuição era uma utopia para quem vivia longe dos grandes centros urbanos. Eram transformados em quartos, quando algum dos meus 9 tios vinha de surpresa com família ou amigos. Já não havia era aquele amontoado de sacos de serapilheira que serviam de travesseiro.

-Não lhe garanto é que não tenha um encontro com um dos meus gatos durante a noite.

-Sempre é melhor do que arriscar dormir ao relento na praia, exclamou de alívio. Os encontros na areia são sempre mais imprevisíveis. E corro o risco de, caso chova, apanhar uma gripe. Se não me levar muito dinheiro, aceito a oferta.

-Paga o mesmo que pagaria no parque, que seria…

-Este, não faço ideia. Normalmente 5€ por dia. É inverno…

-Então estamos combinados. Paga o mesmo. Venha.

Fechei a porta e dirigi-me com ela à “tulha” como chamava a minha avó ao espaço onde tudo estava guardado. Inclusive os guarda-sois já inutilizados pelas intensas nortadas. Dizia o meu avô que sempre serviam para peças.

O espaço era exíguo. A porta, com não mais de 1,70 M sempre me dificultou a entrada. Perdera já a conta às cabeçadas que dei naquele aro de madeira de carvalho. Para a minha nova hóspede, a dificuldade era similar.

-Tenha cuidado para não bater com a cabeça, isto parece a casa de um anão.

Acendi a luz para vislumbrar melhor o que teria de transformar para acolher uma pessoa e, ainda por cima, cobrar-lhe dinheiro. Contornei a velha arca do arroz e estiquei os braços para abrir as pesadas portadas da janela. Quase que não conseguia tirar a barra de ferro que garantia que não se abririam com as frequentes intempéries, de tão ferrugenta.

Tinha uma magnífica vista sobre as dunas. Ao longe podiam vislumbrar-se alguns barcos de pesca, daqueles com não mais de 4 tripulantes, que se aventuram no mar durante o dia em busca de faina lucrativa. Douradas, robalos ou rodovalhos que depois vendem ao Sr.Alfredo que os grelha como ninguém. O sol distante de inverno emprestava um amarelo que encanta. As gaivotas gritavam o seu apelo para que o peixe que ainda não tinham comido, voltasse para a tona da água. O céu, no horizonte trazia tormenta.

-Vamos ter chuva, disse-lhe.

-A vista aqui é realmente inspiradora, retorquiu maravilhada pelo quadro que se lhe deparava.

Combinámos jantar juntos, depois de termos arrumado a tralha que cobria a pequena cama de solteiro. Arranjei um candeeiro para colocar por cima da velha escrivaninha onde o velho Heitor fazia o arquivo das responsabilidades da mercearia e os calotes dos clientes. Sobrava espaço apenas para colocar uma cadeira que seria usada como armário e sapateira. Era o que se podia arranjar.

-Terá que utilizar a casa-de-banho aqui de fora.

-Tal e qual como no campismo, disse-me num tom descontraído, como se tudo aquilo fosse uma dádiva dos deuses.

…continua…

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