sábado, 22 de janeiro de 2011

Capítulo V

- Aqui tem.
- Obrigada – e pagou a bebida. Gostava de ficar livre para se levantar e sair quando lhe apetecesse. Ia saborear um pouco mais a esplanada. De fundo, uma música que conhecia vagamente mas que não conseguia identificar… gosto apurado e nada óbvio.

Curioso… há já algum tempo que não se lembrava sequer da existência do Pedro nem de todo o burburinho que era a vida na cidade. Era tão bom estar ali, revisitar as recordações e ver que o fado de mais uma aldeia abandonada podia mudar e tomar um rumo feliz. Nada no fado é definitivo.

Um outdoor apresenta o programa comunitário patrocinador daquele pequeno milagre. Um protocolo público-privado que envolve também empresas. Muitos milhões, muitos zeros.

Levantou-se e foi bebendo e trincando a palhinha com os dentes. Os paralelos eram substituídos por pedaços de tronco em certas zonas. Faziam um ruído diferente ao pisar. Apetecia saltitar e esboçar uma melodia com estalidos da língua. Tloc, tloc, tloc…

Passou pelos parques temáticos, interessantes, e depois de hesitar, resolveu entrar na sede do projecto - a porta de vidro abriu-se quando se aproximou.

Lindo! Haviam integrado uma rocha indígena na arquitectura do espaço. A luz e um grande aquário completavam na perfeição aquele nicho.

Mapas, plantas, fotos dos espaços antes de serem intervencionados. O andamento das obras, paredes mandadas abaixo, alicerces. As expressões nas faces das pessoas congeladas para o futuro, feitas documentos de estudo. Emoções documentadas. Também aqui, algumas caras lhe eram familiares.

Como sempre, tentou recolher todos os panfletos. A triagem dos que valeriam realmente a pena faria-a o tempo e as sucessivas passagens nas limpezas e arrumações.

Por fim, surgia o Livro de Visitas e um espaço com formulários onde dizia “Deixe-nos a sua candidatura”. Teve curiosidade e pegou num formulário, que começou a ler enquanto esperava que chegasse a inspiração para deixar uma mensagem no livro.

Conheci este local há muito tempo, fez parte da minha infância. Foi um bálsamo para a alma revisitá-lo agora e vê-lo renascido. Um trabalho esplêndido! Muito obrigada e as maiores felicidades!

Simples e concisa! Estava verdadeiramente conquistada. Tacteava o formulário e rodava a caneta nos dedos. Poderia preenchê-lo… não estariam decerto a contratar pessoal, não corria esse risco. Não gostava da vida na cidade, nada lá a prendia, mas sempre lhe faltou a coragem para partir. Nada a chamava de outro lado, também; de qualquer forma, admirava, e muito, as pessoas que deixavam tudo para trás, que se lançavam a trilhar caminhos desconhecidos quando algo não estava bem.

- Posso deixar?
- Claro - ripostou o funcionário atrás da secretária, com um sorriso acolhedor – obrigado pelo seu interesse… e boa sorte para a sua candidatura.

Estava vestido informalmente e tinha a barba por fazer de há vários dias. Não se lembrava dele, talvez fosse um forasteiro. Mas também, como podia almejar lembrar-se de toda a gente que encontrava apenas vagamente nas férias de verão de há tantos anos?

- Minha candidatura?! Ah, sim, claro, obrigada – e saiu meio envergonhada. Esperava que não considerassem aquele papel e a chamassem, era trabalho desperdiçado.

Estava a ficar escuro. Voltou ao carro e regressou a casa.

Regressar a casa. Era hora de voltar a colocar tudo no saco de viagem e preparar o regresso. Na última noite ia preparar uns ovos mexidos e finalmente ver um filme no computador, aninhada por entre as mantas no sofá. Passou tão depressa.

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