Sentia-me um pouco cansado.
Desde que regressara a Moledo, após a súbita morte de meu avô, tivera um chorrilho de emoções enquadrados por desagradáveis surpresas, quase sempre vindas do gerente da Caixa.
Os pequenos negócios familiares tinham-se tornado em esponjas, que além de nos sugarem o tempo e a vida, ainda nos agarravam com todas as memórias e vidas que ali se consumiram.
Era como que um desígnio herdado. Meu avô, herói da 1ª Grande Guerra, havia combatido na batalha de La Lys. Combatido não era o termo adequado, como fazia questão de dizer; estava no Batalhão da Retaguarda, no Depósito de Subsistências, daí herdando a árdua tarefa de gerir alimentos. Árdua sim, porque então o racionamento era a palavra que melhor definia a distribuição dos alimentos.
Quando os Ingleses se esqueceram de proporcionar barcos para o transporte das tropas que iriam render o 1º Corpo Expedicionário Português, os militares que restavam, pouco mais de 8 dos 20 mil que tinham ido para a Flandres, limitaram-se a sobreviver.
Tinha ganho aí o rigor e avareza que lhe davam o perfil de gestor ideal.
Naquele tempo, era um dos homens mais influentes da terra, o dono da Loja. Onde tudo se comprava, que era posto de correio, de polícia e casa do povo. Taberna humilde e limpa, que sempre arranjava um belo petisco para matar a fome a quem a tivesse.
Aquando da 2ª Grande temia-se que os filhos dos que tanto tinham sofrido, fossem igualmente sujeitos ao infortúnio da guerra. A neutralidade que Salazar granjeara para Portugal, proporcionara paz, mas trouxera miséria e a escassez de alimentos. Tudo era racionado.
Meu pai, jovem, com uma educação humilde, tinha ido para o Porto viver com uma Tia. Enfermeira de formação, casada com um Médico, tinha posses para o educar, espelhando nele o que tinha desejado para os dois filhos que tinham morrido com Febre Tifóide, a praga da época, que tantas crianças matava. Tinha aulas em casa e saía em exclusivo, ao Domingo, com a tia, para ir à missa.
A convivência com meu avô limitava-se aos meses de verão. Nunca trabalhara na loja. Até se formar e voltar a Moledo para casar.
A Medicina deu-lhe a frieza e arrogância com que olhava o mundo. Dizia que não curava ninguém. Achava que a sua profissão era uma arte que se limitava a encontrar as causas dos males dos pacientes e definir-lhe o tratamento adequado. Nunca foi verdadeiramente feliz depois da morte de minha mãe. O álcool e tabaco em excesso deram-lhe um triste destino antes dos sessenta anos.
Parecíamos uma família votada à desgraça.
Minha avó achava que tudo não passava de uma maldição. Tinha perdido o rasto a quase toda a família. Foi ali casar, depois de umas férias com uma família abastada de Viana do Castelo. Não lhe pertenciam, mas batiam-lhe desde miúda. As criadas, naqueles tempos, eram mandadas pela família para servir e aprender as lides domésticas. Cresciam com os filhos dos patrões e acompanhavam-nos no verão.
Depois de casar, foi uma verdadeira mulher minhota. Têm fama de autoritárias e rudes. E era. Autoritária, trabalhadora e companheira incansável do velho.
E eu, filho e neto único, via-me de repente só, num mundo que me tinha proporcionado tudo que poderia querer. Tendo sido, praticamente, criado pelos meus avós paternos, tive uma vida quase perfeita. Cresci numa bela terra, de gente humilde, com visitas ilustres no verão.
De paixão em paixão, na sua grande maioria de verão, até uma que me fez render à ideia do “felizes para sempre” que não chegou ao felizes, muito menos ao para sempre.
Depois da completa vida académica, do emprego que me garante o futuro, o regresso à terra para decidir o que fazer com o moribundo negócio de família. A obrigação de fazer uso de uma licença sem vencimento, dava-me tempo para reflectir a melhor solução, não me dando contudo, o à vontade suficiente para me manter em suspenso dos meus caprichos. O dinheiro que o Heitor deixou tinha um estranho traço no saldo que, diz o senso-comum, indica negativo. A casa, velha de mais para render fortuna, deixava mais um horizonte de despesa que de receita.
Enfim, estava como a família Moreno: Por um fio.
Continua…
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