Quando as pessoas nos
morrem, por vezes é esta a forma que arranjamos de as trazer de volta.
Sentimos, mesmo a sério,
mesmo quando não somos crentes, que são um pontinho luminoso que fica a cuidar de nós lá
no céu ou sobre o nosso ombro. O nosso anjo da guarda. Que nos dá força, nos
guia por caminhos certos e nos afasta dos errados. Às vezes sentimos mesmo essa
presença.
E os sonhos, oh, os sonhos…
são momentos esperados, de reencontro, em que eles nos visitam e perguntamos
“onde estiveste este tempo todo, que não soube de ti?”, ou “como conseguiste,
morreste e voltaste? Foi um engano? Um avanço da ciência? Não interessa, que
bom! Fica aqui agora!”. E durante aqueles momentos eles voltam a estar
connosco. Abraçamos, olhamos, sentimos, falamos, VIVEMOS! Com tudo a que a vida
tem direito, e mais, por ser uma vida resgatada!
Depois do surreal que é
morrer-nos alguém, e descoberto este poder dos sonhos, passamos a ansiar pela
noite. De manhã o sonho confunde-se com a realidade e sabemos que eles
estiveram mesmo ali, connosco. Sentimo-los. Tudo voltou a recompor-se. Quem diz
que não é o sonho a verdadeira versão do real?
E assim os vamos mantendo ao
nosso lado, vivos, aligeirando a dor e a solidão e ganhando forças a cada noite
deste elixir secreto.
Depois, de repente, olhamos
para trás e vemos que eles já lá não estão. Deixaram de nos visitar e nem
convocando aparecem. Manhã após manhã, constatamos que da nossa memória não
conseguimos espremer uma imagem, uma palavra, um toque… voltaram a não comparecer.
Fica um sentimento ambíguo
de abandono. Abandonaram-nos eles ou fomos nós a abandoná-los? Já não precisam
de nós, puderam passar o limbo e seguir em frente? Ou teremo-los nós traído e abandonado?
Será este abandono para
sempre, agora para sempre? Estaremos prontos para seguir em frente, sozinhos, sem o nosso pontinho luminoso?
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