Perto da aldeia descaracterizada dos avós havia uma outra que andava para visitar há meses. O artigo sobre o projecto de recuperação que ali nascia, que encontrou ao folhear uma revista, deixou-a meio orgulhosa, meio céptica. Devia ser mais um daqueles casos de publicidade enganosa, de engrandecimento de projectos que depois mal saem do papel.
Saiu do caminho que levava e encaminhou para lá o carro.
Começou a avistar o casario e uma ruga de espanto surgiu-lhe na testa, enquanto esboçava um sorriso. “Eu não acredito!”.
O caminho pedonal em calçada convidava a entrar, depois de deixar o carro por ali.
As casas reerguidas, muitas com traços diferentes das anteriores, não tinham agora menos encanto. O espírito do lugar mantinha-se, mas com um novo fôlego.
Fizeram daquele um lugar mágico. Viu passar o velho a coxear ladeado pelo burro e a miúda. As cangalhas seguravam uma trouxa que parecia cair a cada passo… direita, esquerda, direita, esquerda, bamboleava.
Sentiu um nó na garganta e escondeu os olhos atrás dos óculos escuros. Não conseguia lembrar-se de muito mais e isso deixou-lhe um travo amargo na boca. Tinha o velho, o burro e a miúda mas não conseguia recordar-se do que falavam, de quais as posições que assumiam à medida que avançavam no caminho, se a miúda ia brincando e ficando para trás ou se, por outro lado, acompanhava o avô sem lhe atrasar o passo.
O caminho ainda era longo desde a casa dos avós até à fazenda – ao foro, como lhe chamavam - e de todo o percurso pouco mais se recordava que da passagem por aquela aldeia, ela observadora das gentes e meio envergonhada pela roupa humilde de trabalho e o avô absorto nos seus pensamentos. Logo à frente cortavam à direita e entravam numa estrada de terra batida e muros altos, a do campo da bola. Depois, o cruzamento onde não raro se deparavam com uma cafeteira velha ou uma panela gasta. “Não mexas, são bruxarias!”. E ela não mexia.
O caminho ainda era longo desde a casa dos avós até à fazenda – ao foro, como lhe chamavam - e de todo o percurso pouco mais se recordava que da passagem por aquela aldeia, ela observadora das gentes e meio envergonhada pela roupa humilde de trabalho e o avô absorto nos seus pensamentos. Logo à frente cortavam à direita e entravam numa estrada de terra batida e muros altos, a do campo da bola. Depois, o cruzamento onde não raro se deparavam com uma cafeteira velha ou uma panela gasta. “Não mexas, são bruxarias!”. E ela não mexia.
Havia turistas por ali, a divulgação estava a resultar. Pormenores cuidados, bermas empedradas, também, cobertas por plantas espontâneas.
Algumas das caras que via ao passar eram-lhe familiares. Muitos não saíram dali para estudar, fixaram-se, formaram famílias, cresceram. Deviam trabalhar por perto. Outros, não tinham ainda morrido.
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