domingo, 17 de fevereiro de 2013


Há muito que não ia a um funeral. Hoje fui a um.

Meio dia chuvarudo a condizer com os estados de alma. Avô duma prima, que recordo no vigor da vida, nós crianças, reunidos em festas familiares, quando os primos são ainda pseudo-irmãos e os avós deles também uma espécie de família nossa. Casamentos e baptizados de filhos e netos – primos e tios. Braços de trabalho a tratar da vida, quando todas estas festas eram feitas em casa sob sombras de rama de eucalipto, mesas e bancos de tábuas corridas e chão de junco. E a balbúrdia de fazer as comidas, muitas vezes só com a ajuda duma boleira de fora.
Nessa altura, eles a tratar da vida e nós a depender deles, independentes apenas nas nossas brincadeiras. Mas ainda extensões deles.

Depois cresce-se. Os primos afastam-se. Os avós, os nossos e os deles, envelhecem. Adoecem.

Hoje, no último adeus ao marido, a T’Isabel, chorava e repetia “adeus, amigo”. Do cimo dos seus oitenta e cinco anos, a maior parte em conjunto com ele, dizia “adeus, amigo. Uma prenda tão boa que eu tive!...adeus, amigo”.

Percebi, não logo, que ela estava a falar da vida deles, e dele, em particular. Não é uma daquelas situações em que os mortos passam de repente a ter só qualidades que não tiveram em vida. Não. O Ti Chico era um bom homem. Ao que via, um bom marido, um bom pai, bom avô. Penou muito antes de partir. Muito e muito tempo. Uma daquelas doenças malvadas.

 “Quem vai agora entrar naquela casa sem ti, amigo, vais para uma casa tão escura. Adeus, amigo. Uma prenda tão boa que eu tive!...”

Que melhor homenagem pode uma mulher fazer ao seu companheiro de vida?

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