As botas de borracha enlameadas pisavam o chão de paralelos irregulares. A estrada era ladeada por muros de pedras, de onde saíam ervas rasteiras e tufos de musgo.
Sabia bem o ar frio na face depois de dois dias de completo isolamento. Parou o carro quando chegou, descarregou os sacos e fechou-se em casa, no aconchego da lareira e do casaco velho com borbotos. Saiu agora que a lenha começava a escassear.
Estava a precisar deste refúgio. A agitação, a festa em que andava constantemente pouco tinham a ver com o que realmente sentia. Sentia-se cada vez mais uma carapaça oca.
Pousou a lenha no canto, preparou um lanche e voltou para o sofá. Tentava convencer-se de que não estava assim tanto frio para despir a roupa e tomar um banho.
Estes dias de férias foram providenciais, e que melhor sítio para se reorganizar que a casa dos avós maternos – suficientemente longe, suficientemente isolada.
Caiu uma mensagem no telemóvel- a segunda desde que veio. Deixou para ler depois.
Os quatro canais da TV não permitiam grande escolha a estar hora do dia, mas a pensar nisso trouxe alguns filmes para ver no computador. Por agora, lia um livro, com o ruído da televisão em fundo.
Apesar da distância, o pensamento tornava. Mas não era para isso que ali estava? Não era para pensar e repensar, para cansar-se de pensar, para esgotar-se e recomeçar de novo, cabeça limpa?
Olhando para trás, toda a sua vida amorosa lhe parecia ridícula. Ridículo, até, dar-lhe esse nome. Não queria juntar ao rol mais uma história semelhante, mais um falhanço.
Sempre que se encontrava com o Pedro esta determinação estava firme no horizonte. Saíam apenas entre amigos, diluídos num grupo, mas a determinada altura acabavam inevitavelmente os dois a conversar. Sentia-se sugar pelos olhos dele. Sorriam-lhe, tinha a certeza. E não conseguia evitar sorrir-lhe de volta. Por muito determinada que estivesse, por muitas barreiras que erguesse… acabava com a alma nua, indefesa. Uma e outra e outra vez.
E isso tinha que acabar. Exigia disciplina, apenas. Exigia mais determinação. Treino. Sozinha com os seus botões, tinha todo o tempo do mundo e uma imensidão de espaço para se mentalizar da sua nova meta, condicionar os caminhos do pensamento.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
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