Passou muitos fins de tarde naquela empena a espreitar os últimos raios de sol por entre as oliveiras, com o avô.
Raramente se ouve falar da empena da casa, mas aquela era uma zona nobre. Dava para a pequena horta de cômaros minúsculos, decerto feitos com sachos igualmente pequenos. Adivinhava-se que ali a água chegava mansa, serena.
Do que falavam? Não se recorda. Recorda-se, sim, que muitas vezes o avô ficava a mirar as mãos, a mexê-las… um exercício de descontração, à medida que vagueava o espírito… a avó tinha o mesmo hábito. Teria sido adquirido com a convivência entre os dois ou comum a todos aqueles que se habituaram a viver com pouco mais que nada?
A aldeia era menos povoada que naquela altura; restavam os velhotes e alguns casais mais novos com filhos pequenos… os putos não sabiam que havia todo um mundo lá fora que lhes estava vedado por viverem naquela bonita terra mas afastados de tudo. A televisão e as breves incursões na internet permitiam-lhes olhar essa realidade apenas de relance, como se de um filme se tratasse.
Mercê da breve escolarização, alguns não sairiam sequer dali e o ciclo perpetuava-se por mais uma geração. Iam trabalhar na terra ou numa das fábricas que por ali surgiam... eles também na construção civil, elas também nos serviços. Iam casar, ter filhos e aceitar a vida como ela era, sem se questionarem, iam deixar de sonhar.
Ela, sempre se questionou. Quando apanhava o autocarro para a escola olhava as pessoas e questionava-se acerca de tudo. Ficava a olhá-las e pensava que a vida era mais que aquilo. Mais o quê?
Questionava-se sobre tudo, do mais pertinente ao mais pateta. O João Jorge, um colega de liceu que tinha por ela uma paixão assumida, dizia que ela pensava demais. Dizia aquilo como se fosse uma espécie de doença que ela devesse tratar. E naquela altura ela acreditava que era. Bom, pelo menos algum distúrbio.
Hoje, sabia que ele era uma daquelas pessoas que ela via no autocarro. E o pensar demais que a apoquentava naqueles anos... bom, era o motor que a fazia avançar.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
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