A porta fechou-se.
“Por favor, deixa-me sair”. Não me recordo se estava trancada ou simplesmente fechada. Não me recordo o que disseste nem se eu disse mais que isto.
Conseguia ainda hoje localizar aquela sala de aulas. Sei que fiquei em pânico por nos teres fechado ali aos dois. E pouco mais. Foi o teu pequeno grande acto de coragem, mais uma demonstração de amor à menina de quem gostavas.
Nessa altura não sabia que ainda te ia querer, que te ia amar. Nessa altura, e durante muito tempo, toda eu eram conflitos, buscas, barreiras.
O tempo passou. Como nos trouxe para perto, devolveu-nos a distância. E foi aí que vi que me fazias falta. Continuavas num cantinho de mim. Quando o acaso nos juntava eu ficava feliz, um bocadinho pateta até, como tu antes, nunca reparaste?
Nunca to disse.
Éramos duas almas inquietas, a viver as nossas buscas pessoais, e via-nos aos dois juntos e finalmente apaziguados.
Não tenho aquele desejo comum de querer voltar aos verdes anos. A todos os prazeres, descobertas e aventuras associo igualmente angústias, inseguranças, culpas, a procura do meu lugar no mundo, perante os outros e perante mim.
Só tardiamente me consolidei.
Por isso nunca quis voltar atrás. Talvez que a vida me trouxesse de novo pessoas e situações…mas nunca voltar atrás.
Esculpi-me. Escolhi quem sou, os princípios, os valores que me norteiam. E tenho orgulho na pessoa que sou. Por isso é inútil toda este jogo de sedução que tens vindo a pôr em prática. Sei simplesmente que é errado e jamais o farei.
A tua primeira abordagem foi desarmante – “sou casado, tenho uma bebé, não estou aqui para te seduzir… apenas me interesso pelo tema do livro que estás a ler - maçonaria, não é?”
Sim, foste genial.
Depois, tudo foi acontecendo. O timbre da tua voz que surgiu agradável, a tua figura comum… não havia perigo, estava tudo sob controle.
Mas logo surgiram os primeiros sinais de alarme, as tuas primeiras investidas, que depressa se tornaram numa sedução transparente, crua mas agradável.
É certo que tínhamos afinidades, passávamos noites inteiras a conversar, a vaguear pela cidade… poderíamos ser bons amigos, nunca te deixaria, nunca me deixaria passar daí.
Não sabias, mas eu estava um caco. Estava a sair duma relação e não podia dizer-te, é claro.
Quando finalmente chegava a casa embrulhava-me sobre mim mesma na cama e assim ficava até poder.
Foi um fim que eu própria decidi, que chamei. Mas não deixei de sofrer horrores por isso.
“Vamos acabar com isto e encontrar alguém para nos libertarmos daqui e não regressarmos ao mesmo. Por favor, só peço que me avises quando acontecer”. Parecia uma viciada a falar, e de facto era.
Já não tinham conta os retornos… deixei de lutar, deixava-me simplesmente ir sem as falsas promessas aos outros e a mim mesma de “nunca mais!”.
Era uma relação que me castrava, na qual parecíamos viver cada um no seu mundo, falar línguas diferentes, embora isso passasse despercebido a quase todos … um mundo de autismo que por vezes me parecia surreal.
Por isso era um alívio cada ruptura e uma angústia cada inevitável retorno...sabia que a harmonia, a empatia, a afinidade eram apenas fogo de vista. E que era difícil sair.
E lá chegámos a mais um fim definitivo. Olhámos para o casal que por ali andava com uma criança e eu senti-me impotente, infértil. “Nunca vamos conseguir chegar aqui, somos disfuncionais, incompetentes. Não… somos ridículos.”, pensei. Tu também olhaste. Não sei o que pensaste.
Éramos tão incompatíveis que fazia dó, e no entanto, havia sempre algo que nos trazia de volta. Por isso me doeu tanto o não me teres dito adeus, o teres-me deixado sozinha a passar por tudo, simples espectadora. E não o era, também eu era protagonista.
Imaginava até as palavras:
- Encontrei alguém, gosto dela, estamos livres… adeus.
Mas esse adeus nunca veio. O alívio deu lugar a uma profunda mágoa e a um insuportável sentimento de abandono.
E tu não podias saber disso, tornava-me numa presa fácil.
A sedução continuava, cada vez mais aguerrida. Numa das noites em que íamos pela cidade a conversar, lado a lado, os nossos corpos tocaram-se, e conclui que teria que ter cuidado e ser forte, não me eras indiferente, mexias comigo. Mas sei quais são os limites. Sim, sei quem sou e quem nunca serei. Sei que tens uma mulher em casa, a quem chamas Maria (soa-me a nome de electrodoméstico… penso que lhe deste um nome falso) e uma filha que adoras, a Carolina. Falas delas sem pudor, sem culpas.
- E porque não te separas?
- Mas… quem disse que quero separar-me?
Certo. Sem rodeios, transparente, cru.
Curioso como a vida encaixa os episódios, como se encadeiam capítulos em alturas como esta. Apesar de tudo, precisava de ti aqui, era mais fácil passar por tudo.
E depois tudo mudou. Dum momento para o outro, o que estava mal desmoronou-se. Eu.
O telefone tocou e tirou-me aquela que eu via como a minha possibilidade de ser feliz. Tirou-me uma das pessoas que eu mais queria na vida. Aquela que me faltava, que me iria completar, fazer feliz. Que eu iria fazer feliz.
Há vida interior que nunca passa para fora, que é só nossa. Por isso ninguém percebeu o que se passou comigo.
Já não te via há tanto tempo, e agora ia ver-te dentro de um caixão. Será que ia sequer ver-te?
A imagem daquela sala de aulas e nós encerrados lá dentro competia com a visão da estrada. Lágrimas, muitas lágrimas, choro compulsivo. Felizmente a viagem era longa, ia secar antes de chegar.
A viagem foi longa, e foi aí que comecei a mudar. Ficou apenas a carapaça e lá dentro todas as peças se desmoronaram, caíram ao chão e por ali ficaram, desencontradas. Confusão, desnorteio, vazio. A tua morte veio pôr em causa toda a minha vida. Tentava reerguer-me, mas não conseguia. Confusão, apenas confusão e vazio.
Imagens que me assolavam… todas a vezes que me procuraste e não te dei importância. Todas as vezes que quis procurar-te e não tive coragem.
Tudo o que não fiz era-me agora retirado. A tua morte pôs-me face à minha própria finitude. A tudo o que não fiz e até tive vontade de fazer. Porquê? A quem respeitei, a mim? Aos meus princípios, aos meus valores? Quem sou eu, afinal? Quem quero ser? Nunca saltei a janela à noite, nunca quebrei as regras, fui sempre a menina comportada, que nunca teve um acto para além dos limites, do expectável, nunca passou as barreiras, a linha do que é certo e errado. E o que era isso afinal, o certo e o errado? Era-o para mim ou para os outros? A quem vou ter que prestar contas quando olhar para trás?
Vi que me arrependia de tanto que não tinha vivido. E que podia não ir a tempo de o fazer agora. A vida tirou-te de mim e não me deu uma segunda oportunidade. Nunca ia saber como seria. Nunca ia sentir o teu abraço, tocar-te, e tanto que queria fazê-lo.
Cheguei. Algum tempo depois, tu chegaste. Não eras tu, era uma caixa. Não era o teu sorriso, o teu olhar, o teu ar brincalhão, era uma caixa. Confusão. Choro incontrolável. Senti-me desmaiar, o que nunca percebi em situações destas. Mas controlei-me. Estava sozinha.
Na viagem de volta sequei. Não tinha mais lágrimas. Olhava para a minha vida e tentava perceber. Tentava perceber quem era e quem queria ser.
Peguei nas peças e tentei reerguê-las. O resultado não coincidia com o anterior. Mas era este eu que queria para mim a partir de agora.
O Afonso soube desde o início, falámos pouco depois de ter chegado a notícia. Não sei se o viu como uma oportunidade. E isso pouco interessava.
Falámos de ti e de tantas coisas mais. Do sentido da vida. Das pessoas que nos eram queridas. De quem nos foi tirado. Vagueámos pelas ruas, mais uma vez. E, lado a lado, íamos cada vez mais próximos. Parávamos, ficávamos a conversar frente a frente, a expulsar demónios.
E finalmente abraçámo-nos. Precisava tanto daquele abraço, daquele aconchego, precisava tanto de tudo aquilo.
A tua morte teve um efeito curioso em mim. Mudei, sabes? Renasci. E renasci diferente. Jamais me permitiria agir assim, antes. Jamais me permitiria saboreá-lo.
E agora ali estava, numa espécie de ritual tardio de entrada na vida adulta. Sem culpas e até com um certo orgulho. Aquela relação sem compromisso, sem futuro era, de certa forma, segura.
Era a minha redenção, o meu ajuste de contas com tudo o que a vida me estava a fazer passar.
Ali estava eu, o Afonso, a mulher dele (a aliança no dedo, usada despudoradamente, impunha a presença dela), o Pedro e a sua nova companheira. E tu. Tu principalmente.
Encontrámo-nos mais uma ou duas vezes. Ofereci-lhe o livro da maçonaria, que não sei se acabei de ler. Ele não percebeu porquê.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário