terça-feira, 14 de julho de 2009

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“O teu pai é um leviano, Carolina”
Embrulhava as palavras numa melodia infantil calma, bonita.
A Carolina olhava-a, segurava-lhe o dedo nas mãos minúsculas e mexia a chucha, serena. Fixava-a (será que a via?) e deixava-se embalar pelo movimento e pela melodia.

Cheirinho a bebé, fruto de um amor que andava tão distante, embora estivesse ali, no quarto ao lado.

“ O teu pai é um irresponsável e eu não vou suportar isto por muito mais tempo, bebé…”. E beijava-lhe a testa, ao mesmo tempo que a achonchegava e baloiçava a cadeira. O sal das lágrimas espalhava-se pela pele das duas.

Um dia mais tarde a Carolina não ia recordar nada disto, das confidências que a mãe partilhou com ela quando bebé, das confidências que a mãe partilhou quando ainda eram as duas uma, enquanto acariciava a barriga. Lágrimas já nessa altura. Gritos de raiva e de impotência, por vezes. Não via ainda a filha e achava-a mais protegida. Permitia-se explodir.

Pequenas e grandes traições, uma após outra, uma após outra descobertas. Era como um modo de vida, um jogo no qual ele estava viciado, que lhe era intrínseco.

Ela sabia-o. Foi atraída para a teia ainda adolescente, ainda os dois adolescentes, e depressa viu que teria que partilhar essa teia com muitas outras mulheres. Podia tê-la abandonado, como faziam todas elas. Ou eram abandonadas por ele. Mas ambos decidiram continuar aquele jogo. Sim, foi cúmplice, viu quais eram as regras e ainda assim decidiu avançar.
Podia ser que… podia ser que ele mudasse. Podia ser que não fosse assim tão mau.

Sim, por vezes era fácil, quase lhe passava ao lado.

Outra vezes não. Queimava-a, toldava-lhe a visão, enfurecia-a e deixava-a inerte ao mesmo tempo. Estava a desperdiçar a vida ao lado de um homem para quem ela era apenas uma peça do jogo, num jogo com muitas mais.

Há semanas atrás, quando a Carolina nasceu, o pai tomou-a nos braços, emocionado. Os olhares de ambos cruzaram-se, felizes. Felizes por a Carolina ter nascido, mas sempre com aquela barreira à intimidade que nem aquele momento dissipou.

A Carolina não era de ambos. Era de cada um.

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